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Apesar das falhas, A Vida de Chuck é tocante e Mark Hamill se destaca

8

Afastando-se do terror que  marca Stephen King, Mike Flanagan adapta A Vida de Chuck, uma obra de realismo mágico que se desdobra como uma poesia melancólica sobre a vida e a morte. O filme começa com força surpreendente. O primeiro ato, marcado por um tom surreal apocalíptico, é disparado o ponto mais instigante da obra. Não é que seja particularmente inovador, mas há algo de raro em um filme que decide abrir com o fim — e nessa decisão, Flanagan encontra sua maior ousadia. Esse surrealismo inicial nunca é alcançado novamente, e a sensação é de que o longa desperdiça o próprio impulso.

O elemento fantástico do “quarto proibido” poderia sustentar o estranhamento nas partes seguintes, mas não consegue gerar a mesma inquietação. A estrutura “de trás para frente” — morte, meia-idade, infância — mantém o clima de curiosidade, mas não segura sozinha um filme que, aos poucos, vai escorregando para um sentimentalismo indeciso. O problema não é abraçar o piegas: histórias de luto, memória e despedida têm espaço legítimo para isso. O que pesa é a falta de uma costura que una os atos de forma coerente, fazendo com que cada segmento pareça pertencer a um filme diferente.

Apesar das falhas, A Vida de Chuck é tocante. Tom Hiddleston dá vida a um protagonista que permanece um mistério, mas que encontra no afeto do público um eco; Mark Hamill se destaca como o avô de Chuck; e a direção de Flanagan, ainda que oscilante, consegue criar momentos de verdadeira beleza. No fim, o filme soa como um quebra-cabeças com peças faltando: bonito, poético, mas incompleto. É uma ode ao luto — de si e do outro —, um retrato frágil mas sincero da morte como perspectiva inevitável e, paradoxalmente, da vida como maravilha.