Editor's Rating

um bom filme, mas deixa o gosto de que poderia ter sido um grande filme

8

A originalidade de Bom Menino (Good Boy) é seu maior trunfo. A premissa de Ben Leonberg — contar uma história de casa mal-assombrada inteiramente pela perspectiva do cão Indy — vai muito além de um simples artifício técnico. O filme acerta ao focar no horror pela ótica da devoção indefesa: a angústia de uma criatura leal que percebe a deterioração de seu dono, mas é incapaz de intervir ou compreender. Quando se apoia nesse olhar, Bom Menino é conceitualmente ambicioso e genuinamente comovente.

Com o tempo, porém, a singularidade dessa perspectiva se estabiliza, e a trama revela-se mais direta do que aparenta. O verdadeiro terror não é a entidade que ronda a casa, mas o drama existencial de Indy assistindo à doença de Todd. O filme se transforma, assim, em uma poderosa e devastadora alegoria sobre a lealdade incondicional diante do luto e da incompreensibilidade da morte — e a forma como traduz isso por meio dos arquétipos do terror é imageticamente muito forte.

O problema é que o roteiro não parece confiar inteiramente nessa potência. Conforme a história avança, os elementos sobrenaturais surgem de maneira subdesenvolvida, e a sensação é de que o filme se esforça para enevoar o simples com clichês de gênero que não dialogam com a força de sua premissa. Esses subterfúgios enfraquecem o impacto, como se a narrativa temesse ser “pouco filme de terror” e, ao tentar se encaixar, acabasse sabotando o que tinha de mais singular.

Bom Menino tinha em mãos a chance de ser um terror de grau existencial raro, focado inteiramente na perspectiva animal da perda. Segue sendo um bom filme, mas deixa o gosto de que poderia ter sido um grande filme, se apenas tivesse confiado mais na própria premissa, não se preocupado tanto em esconder “plot twists”.