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O verdadeiro susto aqui é ver como uma história sobre imaginação e luto termina como manipulação de marketing voltada ao público mais vulnerável da sala de cinema.
Esteticamente, Desenhos acerta em cheio. O trailer já mostrava a força imagética da proposta: desenhos infantis que ganham vida em texturas de giz de cera e glitter, invadindo o mundo real com monstruosidade e encanto. No cinema, esse aspecto visual continua sendo o grande trunfo do filme. A sensação de ver a imaginação infantil se projetar em criaturas que equilibram inocência e ameaça é, de fato, magnética. O problema é que essa inventividade não se estende ao roteiro. A narrativa, ainda que abrace corajosamente o tema delicado do luto, não tem a mesma ousadia e acaba se apoiando em soluções formulaicas e previsíveis. Há mérito na decisão de não tratar o luto de uma figura parental de forma leviana, mas a resolução de algumas questões emocionais levantadas é rasa e frustrante, mesmo que a situação central tenha uma resolução mais satisfatória.
O elenco, por sua vez, sofre com a falta de condução. Os adultos — com nomes conhecidos no meio — ficam subaproveitados, como se estivessem ali apenas para segurar o filme entre uma cena e outra das crianças. E o elenco infantil, embora entregue com sinceridade o que o roteiro permite, parece carecer de uma mão mais experiente que pudesse extrair performances memoráveis. O resultado é um conjunto que funciona apenas no básico, sem nunca alcançar o potencial que a premissa prometia. Uma fábula sobre luto e imaginação que poderia ser marcante termina parecendo mais um desperdício de boas ideias.
Polêmicas externas acabaram desviando parte da atenção: nos Estados Unidos, a associação com a Angel Studios, que promove filmes de propaganda ideológica e proselitismo religioso, provocou tanto desconfiança de quem esperava propaganda religiosa quanto indignação de famílias que se sentiram traídas pelo tom mais sombrio do que o padrão da empresa. No Brasil, esse peso cultural não deve ter a mesma força, mas há uma questão ética que precisa ser discutida com seriedade: o filme termina como uma grande propaganda disfarçada para um aplicativo de criação de monstros. Diante da empolgação natural que as crianças terão ao ver desenhos da protagonista ganhando vida em tela, é quase impossível que não queiram baixar o app — sem que haja clareza sobre custos ou privacidade de dados. Mais do que “ser assustador demais” para crianças, o verdadeiro susto aqui é ver como uma história que poderia falar sobre imaginação e luto termina servindo a uma manipulação de marketing voltada ao público mais vulnerável da sala de cinema.

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