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Quase engraçado, quase marcante

7

Chad Hartigan, cineasta que já havia demonstrado sensibilidade em Memórias de um Amor, retorna com uma proposta que, à primeira vista, sugere uma farsa sexual adolescente, mas que rapidamente tenta se transmutar em um estudo melancólico sobre as consequências da impulsividade. Entre Nós – Uma Dose Extra de Amor engana quem espera apenas risadas fáceis; visualmente, o filme se beneficia da fotografia de Sing Howe Yam, que confere uma textura digital impressionante e uma elegância visual que o eleva acima da média das comédias de estúdio. No entanto, essa estética apurada muitas vezes serve apenas para embalar uma narrativa que busca desesperadamente ser “adulta”, sem conseguir sustentar o peso das ambições dramáticas que se propõe a carregar.

O coração pulsante da obra reside, inegavelmente, em Zoey Deutch. Como Olivia, ela injeta camadas de vulnerabilidade, neurose e caos que o texto muitas vezes apenas sugere, reafirmando seu status como uma das atrizes mais interessantes de sua geração. É uma performance que luta vigorosamente para elevar o material, especialmente quando contrastada com o protagonista, Connor. Jonah Hauer-King, infelizmente, opera em um registro de passividade que beira o vácuo de carisma; seu personagem, desenhado para ser o “cara legal” e sensato que ancora a trama, acaba se tornando o elo mais fraco, incapaz de gerar a empatia ou o conflito interno necessários para que o triângulo amoroso funcione com a gravidade pretendida.

O problema central, contudo, está na arquitetura do roteiro de estreia de Ethan Ogilby. Ao tentar equilibrar a leveza estrutural da rom-com com temas espinhosos como gravidez indesejada e o cenário restritivo do aborto no Arkansas (onde a produção foi filmada), a mistura de tons resulta em uma dissonância indigesta. Há momentos em que o filme parece flertar com um moralismo estranho, quase punitivo em relação à libertinagem inicial de seus personagens, enquanto tenta, simultaneamente, celebrar a complexidade das relações modernas. Essa esquizofrenia tonal faz com que as viradas dramáticas soem artificiais, como se o filme tivesse vergonha de sua premissa inicial e precisasse constantemente pedir desculpas por ela.

No fim, Entre Nós – Uma Dose Extra de Amor é uma experiência de “quase”. Quase profundo, quase engraçado, quase marcante. Funciona como um retrato geracional confuso, tal qual os próprios millennials que tenta retratar, mas tropeça na execução de suas reviravoltas finais. É uma obra que vale a conferida pela entrega ferrenha de Deutch e pela audácia técnica de Hartigan em tentar subverter o gênero, mesmo que o espectador saia da sessão (ou feche a aba do streaming) com a sensação persistente de que havia um filme muito mais corajoso escondido sob as camadas de indecisão do roteiro.