Extermínio: A Evolução nos joga de volta ao universo do vírus da Raiva, e o faz de forma muito inteligente. O filme ignora os eventos de Extermínio 2 para focar numa Grã-Bretanha que, isolada do resto de uma Europa funcional, virou uma espécie de terrário de pesadelos isolacionistas. Quase três décadas depois do surto original, a dupla Danny Boyle e Alex Garland retorna para mostrar um terror não na explosão do caos, mas sim nas consequências de longo prazo enquanto os sobreviventes apenas seguem em frente.
O coração do filme é uma família tentando sobreviver numa comunidade fortificada na ilha de Lindisfarne. Temos Jamie (Aaron Taylor-Johnson), o pai que tenta cuidar da família como pode; Isla (Jodie Comer), a mãe que está com alguma doença e não parece estar completamente lúcida; e o jovem Spike (Alfie Williams), o filho de 12 anos que nasceu nesse mundo destruído e não conhece outra realidade. É a jornada de Spike—primeiro num ritual de caça com o pai e depois numa busca desesperada por um médico (Ralph Fiennes) para a mãe—que define o filme como uma poderosa história de amadurecimento. As atuações são um show à parte, com destaque para o novato Alfie Williams, que carrega o filme como protagonista, e Jodie Comer, que entrega um trabalho sutil e devastador.
Danny Boyle continua um mestre na direção, com uma energia contagiante e um visual arrojado. A escolha de filmar com iPhones e usar uma tela ultra-larga cria um desconforto interessante, entregando um horizonte estonteante que esconde ameaças constantes. Mas é aqui que os problemas começam a aparecer. O filme parece dividido, com uma estrutura “desequilibrada” que oscila entre o realismo cru com um drama familiar emocionante e um estilizado filme de terror para a massa com ação fantástica e cores menos naturais. Essa mistura causa umas mudanças de tom meio bruscas e, por vezes, a parte do horror soa mais como uma obrigação do que algo natural na história.
Ainda assim, Extermínio: A Evolução é um regresso triunfante e uma sequência que vale muito a pena. O filme é surpreendentemente comovente e tem uma alma que muitos blockbusters de terror nem sonham em ter. O foco na família, na perda e na aceitação da morte o torna uma experiência memorável. O problema é que, para quem espera a mesma intensidade frenética dos primeiros filmes, talvez saia um pouco decepcionado. É um filme poderoso e profundo, com alguns tropeços em estrutura e ritmo, mas que consegue revitalizar a saga de forma ousada e emocional.

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