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Uma experiência sensorial de luto e criação.

8

Adaptar uma obra literária de sucesso é sempre caminhar sobre uma linha tênue entre a fidelidade e a invenção. Quando essa obra reimagina a vida da figura mais canônica da literatura ocidental, o desafio se torna monumental. Em Hamnet, a diretora Chloé Zhao (de Nomadland e Eternos) assume a tarefa de levar o aclamado romance de Maggie O’Farrell para o cinema, entregando um filme que é, acima de tudo, uma experiência sensorial de luto e criação.

Para quem já nutria interesse prévio pela especulação histórica que conecta a morte prematura do jovem Hamnet à gênese da peça Hamlet, o filme já começa com o jogo ganho. A narrativa nos carrega com facilidade para dentro da intimidade da família Shakespeare — ou melhor, da família de Agnes (Jessie Buckley). É crucial notar que o foco nesta perspectiva “feminina” e doméstica é a alma do livro de O’Farrell, e o grande mérito de Zhao aqui não é a invenção desse recorte, mas a sensibilidade com que ela o traduz visualmente. O roteiro respeita a estrutura original ao colocar Agnes como o sol gravitacional da trama. O elenco principal entende essa dinâmica perfeitamente: Paul Mescal entrega um William Shakespeare vulnerável, longe do busto de mármore intocável, enquanto Buckley oferece uma performance visceral que ancora a produção. A fotografia naturalista e a trilha sonora compõem um quadro que, fiel à fonte literária, é muito comovente.

No entanto, é justamente na construção desse “William humano” que a adaptação tropeça em suas próprias omissões. Enquanto a representação de Agnes/Anne mantém a força feminista da obra original, conferindo-lhe agência e misticismo, o filme faz uma escolha frustrante ao manter a sexualidade do bardo higienizada. A ausência total de qualquer traço de queerness — seja na companhia de teatro, ambiente historicamente fluido, ou na própria figura de Shakespeare, cujos sonetos sugerem paixões muito além da heteronormatividade — incomoda profundamente.

Pode-se argumentar que introduzir a bissexualidade do autor ou a dinâmica queer do teatro elisabetano desviaria o foco do tema central: o luto parental. Contudo, essa limpeza narrativa ajuda a vender a falsa ideia de que a vivência queer não estava presente na história, ou que ela é incompatível com o “grande drama familiar tradicional”. Ao optar por uma representação segura e estritamente heterossexual, Hamnet perde a chance de expandir a complexidade de seu protagonista para além das páginas. A representação de Agnes é amigável às questões de gênero, sim, mas serve de consolo magro diante do apagamento de outra faceta crucial da identidade daquela época.

Dito isso, Hamnet não deixa de ser um cinema de altíssima qualidade. É um filme que sabe manipular as emoções do espectador com maestria, transformando a dor da perda descrita por O’Farrell em pura poesia visual. A direção consegue capturar o invisível — o peso da ausência de uma criança — de forma palpável. Mas, ao subirem os créditos, fica a sensação de que assistimos a uma versão da história que, embora belíssima e fiel ao foco materno do livro, escolheu não olhar para todas as cores do arco-íris que compunham a alma de seu criador.