Editor's Rating

um filme de excessos e paixões que acerta ao capturar a natureza destrutiva do amor dos protagonistas.

5

A nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes sob a direção de Emerald Fennell deixa claro desde o início que não busca ser uma adaptação fiel, mas sim uma obra livremente inspirada pela atmosfera tempestuosa do livro original. Ao se distanciar da literalidade do texto de Emily Brontë, a diretora opta por traduzir a obsessão e a violência emocional da trama através de uma lente moderna e estilizada, o que resulta em uma experiência que é, ao mesmo tempo, fascinante e frustrante para quem espera o classicismo das versões anteriores.

Visualmente, o filme opera em um contraste gritante e, por vezes, desorientador. De um lado, temos a crueza das cenas mais orgânicas e carnais no Morro, repletas de suor e sujeira; do outro, o visual hiperestético e quase artificial da casa dos vizinhos ricos. Embora essa dicotomia visual sirva para evidenciar a degradação da família que perdeu sua fortuna e status, ela acaba por deixar a narrativa confusa sobre qual tom está adotando em diversos momentos, oscilando entre um realismo bruto e um videoclipe de luxo.

No que tange ao elenco, o filme carrega o peso de decisões questionáveis de adaptação, sendo a mais notável o apagamento étnico de Heathcliff. As críticas sobre essa “branquificação” são válidas e necessárias, visto que removem uma camada essencial da exclusão social do personagem. Contudo, desconsiderando-se essa falha conceitual da produção, o trabalho dos atores é inegável: Margot Robbie e Jacob Elordi entregam uma dinâmica em tela excelente. A química entre os dois é palpável e sustenta a energia do filme, provando que o talento da dupla consegue brilhar mesmo dentro de escolhas criativas polêmicas.

Para os puristas, o quanto o filme se solta das amarras do livro pode ser um incômodo constante, gerando uma barreira difícil de transpor. No entanto, pode-se argumentar que nenhuma adaptação cinematográfica até agora foi particularmente fiel à complexidade total da obra de Brontë. Fennell entrega um filme de excessos e paixões que, se falha na representação e na consistência tonal, acerta ao capturar a natureza destrutiva e irracional do amor que move seus protagonistas.