Editor's Rating

Com essas peças no tabuleiro, o filme deveria ter ido muito mais longe

7

Edgar Wright adaptando Stephen King, Glen Powell assumindo um papel que já foi de Schwarzenegger, e o próprio Arnold elogiando o resultado como “inacreditável”. No papel, The Running Man (2025), ou O Sobrevivente, parecia a combinação perfeita de pedigree nerd e cinema de ação. Na prática, o filme acaba virando um paradoxo curioso: funciona muito bem como vitrine para a estrela do momento, mas tropeça justamente onde mais se esperava segurança — no tom, na estrutura e na assinatura de um diretor que sempre foi sinônimo de personalidade. Ao tentar se distanciar do exagero oitentista para focar na distopia original, a produção cai em um visual padronizado de ficção científica, onde a energia cinética habitual de Wright dá lugar a uma direção contida. O resultado se mostra no rotten tomatoes: é o longa com pior avaliação da carreira do diretor nos agregadores, apesar de ainda aparecer como “Fresh” nas estatísticas.

O que impede o desastre total é o fato de Glen Powell sair maior do que entrou. Seu Ben Richards é mais próximo do perdedor desesperado do livro do que do herói fodastico de 87: um sujeito raivoso, vulnerável, com um cansaço no olhar que justifica as decisões questionáveis que toma. Ele carrega o peso dramático nas costas, bem acompanhado por um Colman Domingo que se diverte horrores como o apresentador Bobby Thompson, um mestre de cerimônias que resume o espírito cínico do show. Quando o filme se concentra no jogo em si — a caçada, os “stalkers” e o espetáculo da violência —, O Sobrevivente entrega um entretenimento eficiente, com momentos pontuais em que o “velho” Wright aparece em planos mais inventivos, como a abertura estilizada e o uso diegético de drones.

O problema reside no tecido que conecta essas cenas de ação. A nova versão tenta equilibrar duas heranças muito diferentes — a distopia niilista do livro e a sátira camp do filme anterior — e acaba presa em um meio-termo. É um filme de correria que vive se interrompendo para explicar regras e sublinhar metáforas, onde executivos e coadjuvantes têm sempre um monólogo pronto sobre a corrupção da mídia, como se a encenação não fosse suficiente. Essa necessidade constante de autoexplicação torna a narrativa pesada e transforma atualizações interessantes (como o uso de deepfakes e a conexão com o universo de Derry, Maine) em notas de rodapé que nunca atingem seu potencial de terror psicológico ou comentário social agudo.

Tudo isso desemboca em um final que, mais uma vez, decide não abraçar o desfecho radical do livro. Embora uma reprodução literal do clímax de 1982 pudesse soar datada, a solução encontrada aqui tira a agência do protagonista e esvazia o impacto da sua trajetória em favor de um encerramento mais seguro. No fim das contas, O Sobrevivente é um filme decente que cumpre o papel de consolidar Powell como astro, amparado pelos elogios públicos de King e Schwarzenegger. Mas, como obra de Edgar Wright, soa estranhamente genérico; e como adaptação de King, fica no meio do pelotão em um ano de ótimas versões do autor. É aquele caso raro em que o legado aprova, o público se entretém, mas a crítica sai com a sensação amarga de que, com essas peças no tabuleiro, o jogo poderia ter ido muito mais longe.