“O Último Azul” – Uma jornada libertária pela Amazônia
Dirigido pelo pernambucano Gabriel Mascaro, O último azulé um filme poético que oferece uma perspectiva corajosa sobre o envelhecimento. A história se passa em um Brasil distópico, onde os idosos, ao atingirem uma certa idade, são compulsoriamente enviados para uma colônia onde deverão passar o resto de suas vidas. Faltando poucas semanas para seguir esse caminho, Tereza, uma mulher que trabalha em uma indústria frigorífica na Amazônia, decide realizar seu sonho: andar de avião pela primeira vez.
Tereza então busca uma agência de turismo para comprar um voo comercial com ida e volta no mesmo dia. Mas, sua filha, que já detém a guarda de Tereza, nega a autorização para a viagem. O último azul se desenrola com Tereza em busca desse sonho, que, como ela própria descobrirá, transcende a simples vontade de voar. É uma busca por liberdade e autonomia. Surpreendentemente, é um enredo que entrega mais esperança e coragem do que pessimismo.
Ao longo de sua aventura, Tereza encontra alguns personagens que transformam sua rota. Os atores Rodrigo Santoro (um barqueiro com o coração partido) Adanilo (um jogador inveterado) e Miriam Socarrás (uma ateia vendedora de bíblias) entregam ótimas atuações, assim como Denise Weinberg, segura e competente como Tereza.
O último azul desafia a visão de que os idosos devem ser “guardados”. Ainda raro no cinema nacional, o tema da velhice surge como central em um Brasil com uma população idosa crescente: segundo o último Censo, o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em doze anos e a população acima dos 60 anos já chega a 15,8% da população brasileira.
Visualmente, O último azul é um filme deslumbrante. Assinada por Guillermo Garza, a fotografia explora a imensidão dos rios amazônicos, a exuberância da floresta e as dimensões das cidades de palafitas. Com apenas 90 minutos de duração, o filme consegue ainda assim ser denso e marcante, com uma montagem que favorece a fluidez.
Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim, O último azul é o filme mais bem acabado de Gabriel Mascaro até agora, um diretor que possui uma filmografia interessante tanto em documentários quanto em ficção, com obras como Um lugar ao sol (2009) e Boi Neon (2015).

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