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O coração do longa está na dupla Dek e Thia, apoiados em um trabalho de atuação muito sólido
Inverter o foco para colocar um predador como protagonista poderia soar como heresia dentro de uma franquia construída em torno do caçador implacável, mas em Predador: Terras Selvagens essa virada funciona como um sopro de ar fresco. Acompanhando Dek, um Yautja banido por ser considerado “fraco”, o filme assume um tom de aventura de fantasia com toques de road movie e buddy movie de ação, lembrando o que Prey já havia feito ao mexer na fórmula. Talvez pudesse ser ainda mais ousado nas mudanças, mas o suficiente é feito para tirar a série da repetição automática sem descaracterizar completamente o universo original.
O coração do longa está na dupla Dek e Thia (Elle Fanning), androide reduzida a um torso preso às costas do protagonista. A dinâmica entre os dois rende momentos de humor, tensão e cumplicidade, apoiados em um trabalho de atuação muito sólido: ele, quase sempre mudo, carrega a culpa e o desejo de provar seu valor apenas na fisicalidade; ela, tagarela e vulnerável, injeta humanidade estranha na jornada. O roteiro acerta ao construir diálogos bem escritos, fugir de alguns estereótipos fáceis e explorar as contradições internas da cultura Yautja — a hipocrisia dos códigos de honra, o culto à violência ritual, a pressão por desempenhar um papel dentro de uma estrutura rígida.
Onde o filme tropeça é na costura de tom. Os momentos cômicos, embora pontualmente engraçados, nem sempre conversam bem com o clima de perigo e brutalidade que cerca a dupla, criando pequenos solavancos entre a aventura leve e o universo de horror e caça que o público associa à franquia. Além disso, Predador: Terras Selvagens flerta com temas interessantes — tradição, exclusão, masculinidade predatória — mas recua quando poderia cravar comentários mais contundentes, terminando em um lugar mais seguro do que o prometido pelo seu ponto de partida. Ainda assim, o resultado é um dos capítulos mais inventivos e envolventes da série em muito tempo: entretenimento sólido, bem acima da média das últimas incursões da marca, e um caminho promissor para o futuro, desde que os próximos filmes tenham coragem de ir tão fundo nas ideias quanto este foi na reinvenção de sua criatura.

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