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Simpático, mas fica a meio caminho entre a comédia confortável e a crítica que realmente morde.

7

Quando o Céu se Engana é uma comédia celestial que vive principalmente do carisma do elenco. Aziz Ansari estreia na direção de longa-metragem apostando numa fábula moderna sobre desigualdade: um anjo desajeitado (Keanu Reeves) resolve provar que dinheiro não traz felicidade ao trocar a vida de um trabalhador precarizado de aplicativo (o próprio Ansari) com a de um investidor milionário (Seth Rogen). A premissa é ótima, rende boas piadas e encosta em questões bem concretas do presente – gig economy, falta de direitos, sensação de estar sempre a um passo do abismo financeiro. Quando o filme está apenas observando esse contraste e deixando os atores brincarem em cena, ele funciona com facilidade.

O problema é que Quando o Céu se Engana parece ter um primeiro ato excelente e nenhuma ideia realmente forte de como encerrar a história. Depois de estabelecer, com certa honestidade, que para alguém como Arj o dinheiro de fato resolve quase tudo, o roteiro precisa encontrar um motivo convincente para levar o personagem a abrir mão dessa estabilidade recém-conquistada. É aí que a fábula perde força: o desfecho soa mais como obrigação moral de “liçãozinha de vida” do que como consequência natural do que vimos, e o comentário social que vinha se desenhando acaba diluído em uma mensagem genérica de bondade individual. O filme enxerga a desigualdade, mas recua quando precisa tirar uma conclusão mais incômoda.

Ainda assim, a experiência é agradável. Keanu Reeves abraça o lado “anjinho tonto” com uma doçura que combina muito bem com a imagem pública dele, Seth Rogen e Aziz Ansari seguram a química, e o resto do elenco ajuda a manter a energia sempre leve. Como estreia na direção, Quando o Céu se Engana é um bom cartão de visitas: mostra que Ansari tem boas ideias, algum olhar para a realidade e ótimo faro para elenco, mas também deixa claro o quanto ainda há espaço para amadurecer na construção de roteiros que levem suas premissas até um final à altura. É um filme simpático, fácil de gostar, mas que fica a meio caminho entre a comédia confortável e a crítica que realmente morde.