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O filme é grandioso, fascinante e pulsante, mas parece não perceber quando seu olhar se torna contraditório

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Paul Thomas Anderson sempre foi um cineasta de paradoxos, mas em Uma Batalha Após A Outra ele eleva essa característica à sua matéria-prima. O filme chega referendado pela crítica internacional como um “clássico instantâneo” e já carrega o peso de ser “o filme de uma geração”. E, de fato, é impossível negar o virtuosismo técnico e a força de um elenco em estado de graça. Leonardo DiCaprio e Sean Penn entregam atuações robustas, mas é a revelação Chase Infiniti que ancora humanidade em um épico que ziguezagueia entre sátira, melodrama e ação explosiva. O resultado é um espetáculo de domínio formal. O ritmo das perseguições é sufocante, a energia da montagem não permite descanso e a trilha sonora de Jonny Greenwood pulsa como um nervo exposto, mantendo a tensão em um nível quase insuportável. Anderson, como um maestro do caos, rege cada elemento com uma precisão que beira a perfeição.

Contudo, cinema não se sustenta apenas com técnica. O grande dilema de Uma Batalha Após A Outra reside em seu tom. Anderson mistura gêneros e registros como um músico de jazz, mas, por vezes, a improvisação soa descompassada. A comédia pastelão colide com a gravidade da violência política, e a sátira, que deveria iluminar, acaba por embaralhar a mensagem. Para o público norte-americano, talvez a caricatura de guerrilheiros maconheiros lutando contra uma cabala de supremacistas brancos soe como uma piada funcional. Para quem assiste de fora, no entanto, a abordagem gera um eco incômodo. A América Latina, por exemplo, conhece de perto o peso de extremismos armados, muitas vezes nutridos por intervenções dos próprios Estados Unidos. Assistir a esse tipo de conflito ser reduzido a uma caricatura — mesmo que protagonizada pelos “mocinhos” — provoca um estranhamento difícil de ignorar.

Essa ironia não intencional permeia toda a obra. Ao tentar radiografar um país fraturado pelo trauma, Anderson se apoia em uma estética que lembra o absurdo literário de Thomas Pynchon, mas escorrega na fronteira entre a acidez e a insensibilidade. O filme é grandioso, fascinante e pulsante, mas parece não perceber que seu olhar se torna contraditório quando ultrapassa as fronteiras americanas.

Uma Batalha Após A Outra é, sem dúvida, uma experiência cinematográfica poderosa. Mas é também um espelho que, involuntariamente, revela a miopia cultural de uma Hollywood que ainda enxerga o mundo a partir de seu próprio umbigo.