Editor's Rating
Uma redenção segura demais para uma história que pedia mais coragem
Após os tropeços de bastidores e recepções mistas de É Assim que Acaba (2024) Uma Segunda Chance consolida o “Universo Cinematográfico Colleen Hoover”, a autora buscou assumir as rédeas de sua própria narrativa através da fundação da Heartbones Entertainment. O resultado é uma obra tecnicamente superior às anteriores, mas que ainda tropeça nas limitações dramáticas do seu material de origem.
A trama acompanha Kenna Rowan (Maika Monroe), uma mulher que retorna à sua cidade natal após cumprir sete anos de prisão por homicídio culposo no trânsito. Seu único objetivo é se reconectar com a filha, Diem, criada pelos pais do falecido namorado (interpretados por Lauren Graham e Bradley Whitford). No meio do caminho, surge Ledger Ward (Tyriq Withers), o melhor amigo do falecido, que se vê dividido entre a lealdade ao passado e uma paixão proibida por Kenna.
O maior mérito do filme reside em seu elenco. Maika Monroe, conhecida por papéis em filmes de horror, traz uma “contensão melancólica” e um olhar que emana perda sem precisar recorrer a histrionismos. A química com Tyriq Withers é palpável e garante a credibilidade necessária para o romance central. No entanto, o roteiro — coescrito pela própria Hoover — parece ter medo de abraçar as “áreas cinzentas” que a premissa sugere. Kenna é pintada como uma protagonista com quase nenhuma culpa real, uma sobrevivente de um azar do destino, o que esvazia o peso ético da história. O conflito se sustenta em um drama fabricado por falhas de comunicação que, embora tragam momentos de tensão, deixam a desejar em termos de um embate dramático verdadeiramente desafiador.
Visualmente, a diretora Vanessa Caswill acerta ao trocar o melodrama visual por um naturalismo atraente, aproveitando as paisagens de Alberta para criar uma atmosfera de nostalgia terrosa. Contudo, essa competência técnica não disfarça a superficialidade das subtramas. Personagens de apoio, como a vizinha com síndrome de Down (Monika Myers) e os colegas de trabalho, são subutilizados e parecem existir apenas para preencher o tempo entre os encontros do casal principal.
O terceiro ato sofre com um ritmo apressado, entregando uma resolução para o romance que soa corrida diante de todo o tempo gasto no estabelecimento da melancolia inicial. Uma Segunda Chance é, sem dúvida, a adaptação mais coesa e bem acabada da bibliografia de Hoover até agora, provando que a autora aprendeu a blindar sua visão criativa. Mas, ao final da sessão, fica o gosto de que o filme poderia ter sido uma obra-prima sobre perdão se tivesse confiado mais na complexidade humana e menos em fórmulas sentimentais previsíveis.
É uma experiência superior às adaptações passadas, beneficiada por atuações sólidas e uma direção sensível. Entretanto, ao evitar o risco e o desconforto de falhas reais, o filme entrega uma redenção segura demais para uma história que pedia mais coragem narrativa.

No Comment