Quem pacifica o Pacificador? Como um herói praticamente desconhecido, do terceiro (ou quarto? Ou quinto?) escalão da DC Comics virou do dia para noite um sucesso entre os fãs de quadrinhos e “filmes de hominhos”? Seria tudo mérito do carisma do John Cena e do James Gunn, ou será que existe algo mais por trás disso? Quer entender melhor quem é o Pacificador? Então vem comigo.


O Pacificador através dos tempos…

Criado em 1966 por Joe Gill e Pat Boyette, o primeiro Pacificador dos quadrinhos não tem nada a ver com o que conhecemos hoje em dia. Claro, seu alter-ego ainda é Christopher Smith, mas em vez de ser um pobre coitado criado por um pai supremacista branco extremamente machista e tóxico, ele é um diplomata pacifista e embaixador à serviço da Conferência de Genebra para o Desarmamento. Sua primeira aparição, na revista Fightin’ Five #40 (1966), o descreve como um “homem que detesta a guerra, a violência e o desperdício de vidas humanas que ocorre durante os conflitos sem sentido entre nações. Um homem que ama tanto a paz que está disposto a lutar por ela!”

Nitidamente, não são a mesma pessoa. Muito embora eu ache engraçado que tanto o seriado quanto o filme O Esquadrão Suicida (2021) deram um jeito de adaptar a frase de efeito levemente hipócrita do herói para uma frase de efeito absurdamente hipócrita: “Eu amo a paz com todo o meu coração. Não importa quantos homens, mulheres e crianças eu precise matar para alcançá-la!” Infelizmente, o próprio gibi da equipe Fightin’ Five acabou sendo cancelado na edição #41. O Pacificador, no entanto, acabou ganhando um título próprio logo em seguida, mas que também durou muito pouco, até a edição #5, apenas.

Depois disso, houve o limbo…

“Oh, meodeos, para vencer eu preciso usar, argh, VIOLÊNCIA…!”

DESCANSE EM PAZ, PACIFICADOR

Sim, o Pacificador ficou na gaveta da Charlton Comics junto com uma pá de heróis durante praticamente toda a década de 1970 e mais um pouco… até a fatídica compra desses mesmos personagens pela DC Comics em 1983. O que deu origem a talvez uma das mais interessantes versões do personagem antes de seu ressurgimento oficial poucos anos depois. Graças ao mago barbudo Alan Moore, o Pacificador foi transformado no Comediante, se tornando a estrela de sua obra-prima, Watchmen (1986).

Moore queria utilizar os heróis recém-adquiridos da Charlton para escrever sua minissérie, porém, Dick Giordano, o editor da DC Comics na época, não aceitou liberá-los porque tinha planos para incorporá-los à cronologia oficial da editora durante o mega evento Crise nas Infinitas Terras (1986). E obviamente, tendo visto o que ele havia feito com o Miracleman, a DC não queria que suas novas aquisições fossem manchadas pelos planos escusos do autor de matar metade deles, enquanto transformava o restante em personagens completamente disfuncionais. Isso forçou Moore a criar arquétipos que acabaram servindo melhor à história do que se ele tivesse usado os personagens de verdade.

“Copia, só não faz igual…”

Assim sendo, a história original intitulada “Who Killed the Peacemaker?” (Quem matou o Pacificador?, em português), acabou sendo transformada em Vigilantes, ou melhor, Watchmen e o resto é história. É bastante curioso, aliás, que uma das maiores histórias do personagem não tenha sido feita com ele propriamente, mas uma “cópia alternativa”, já que ele continuou sendo subaproveitado pela editora pelas décadas seguintes. Vale lembrar que em 2015, a “cópia alternativa” do Moore, Grant Morrison, escreveu o one-shot Multiversity: Pax Americana, como parte do evento Multiversity da DC, que trazia uma visão dos heróis da Charlton Comics em suas versões originais em uma ambientação estilo Watchmen. A história é boa e cheia de metalinguagem, mas só funciona em conjunto com o evento inteiro, que é meio meia-boca.

“Copia, só não faz igual de novo…”

PACIFICANDO OS ANOS 80 E 90

No apagar das luzes da década de 1980 o herói ganha uma nova versão, essa sim, mais parecida com sua versão atual do universo cinematográfico de James Gunn. Em 1988, a DC Comics lança uma minissérie em quatro edições de Peacemaker, escrita por Paul Kupperberg (Checkmate, Patrulha do Destino) e desenhada por Tod Smith (Vigilante, Omega Men). Nessa mini vemos um novo Christopher Smith, ainda agindo como o Pacificador, ainda a trabalho do Pax Institute em Genebra, mas um pouco mais desajustado do que a versão pacifista dos anos 1960.

Entretanto, é curioso lembrar que a DC tenha reclamado com o Alan Moore sobre fazer dos heróis da Charlton Comics um bando de pessoas disfuncionais, quando apenas dois anos após o lançamento de Watchmen eles resolvem mudar a origem do Pacificador para deixá-lo justamente mais disfuncional. Na linha de HQs “adultas e exxxtremas” que viriam a dominar o mercado de quadrinhos dos anos 1990, o Pacificador fica incrivelmente mais violento e ganha novos probleminhas de cabeça (o que, no fim das contas, acaba funcionando para o desenvolvimento do personagem, criando uma relação ainda mais irônica entre o seu nome de super-herói e sua forma de agir, basicamente).

Pacificador, o louco!

Christopher Smith, na verdade nasceu na Áustria pós-segunda guerra, sob a alcunha de Christopher Schmidt. Seu pai, Wolfgang Schmidt, que a princípio parecia ser apenas um fabricante de armas austríaco, na verdade foi um dos maiores oficiais nazistas durante o terceiro reich, responsável por um campo de concentração e pela morte de dezenas de milhares de judeus. Após ter escapado do fim da guerra, Wolfgang se casa com uma americana e finge levar uma vida normal até que descobrem seu passado e ele não vê outra alternativa a não ser tirar a própria vida. O problema é que Christopher assistiu a tudo, com apenas cinco anos de idade.

Fugindo do passado do pai, ele e a mãe voltam aos EUA, mudam o sobrenome e vivem uma vida relativamente normal. Christopher, contudo, começa a mostrar tendências cada vez mais violentas, até se alistar no exército (uma ótima ideia, né?) Após cometer uma série de crimes, ele vai preso e (obviamente, como isso é uma história em quadrinhos) lá dentro ele é recrutado para fazer parte da Força Pacificadora do governo americano, com intenções de “acabar com células terroristas no oriente médio” (ah, os anos 1980). Quando a ideia do programa do governo não dá certo, ele foge e reaparece dois anos depois comandando os antigos negócios do pai e agindo como um super-herói a serviço do Pax Institute.

Haja terapia…!

A grande questão é que todos que trabalham com ele neste “instituto pela paz” percebem logo de cara o quanto ele é instável e montam uma pequena equipe de assistentes, psicólogos, mecânicos, mordomos, etc. que trabalham na mansão do herói para ajudá-lo a manter a sanidade e continuar agindo como o Pacificador. Mal sabem eles que, dentro de sua cabeça ele discute constantemente com o pai nazista que duvida de suas capacidades a todo momento. Além disso, ele acredita que também é atormentado pelas almas das pessoas que ele elimina, que ficam presas em seu capacete. Hum… seria interessante dar uma trocada nessa equipe de psicólogos.

A minissérie examina toda a nova origem do personagem, enquanto o coloca contra um grupo terrorista comandado por um vilão chamado, er,  Dr. Tzin-tzin, um típico vilão seguindo a linha do estereótipo do “terror amarelo” que dominou boa parte dos quadrinhos americanos nos anos 1950 e 1960. O plano dele era desestabilizar o suficiente os países europeus para minar as negociações de paz entre os EUA e a União Soviética, que levariam ao fim da guerra fria. Vamos lembrar que a história se passa em 1988 e que estávamos a poucos anos disso acontecer de verdade.

O maluco do trabuco.

XEQUEMATE Feat. ESQUADRÃO SUCIDA

Mais uma vez, o personagem desaparece das páginas da DC a não ser por algumas participações especiais. Em 1989, ele se une brevemente à organização antiterrorista Xequemate (o braço internacional da Força-Tarefa X, de Amanda Waller), também quase no apagar das luzes da revista Checkmate (1988-1991). Enquanto fazia parte desta equipe, o Pacificador bate de frente pela primeira vez com o Esquadrão Suicida durante o evento Conspiração Janus (1989), publicado aqui em Superalmanaque DC #2 (1991). Em 1994, ele aparece com um leve destaque durante o evento Juízo Final, que envolvia a Liga da Justiça América e a Liga da Justiça Internacional, publicado aqui na revista Liga da Justiça & Batman #20-22. Ainda no mesmo ano, o herói entra para mais uma equipe criada por Amanda Waller, os Shadow Fighters, para enfrentar o vilão Eclipso, que havia dominado um país inteiro na América Central. Infelizmente, ele morre durante esta batalha, mas nós nunca soubemos disso porque essa história nunca saiu no Brasil. Claro que tudo pode ter sido potencialmente desfeito em 1996 com o evento Zero Hora, mas não vamos entrar no caso aqui.

O Pacificador também aparece brevemente como um fantasma durante o evento Dia do Julgamento, que apresentava o retorno de Hal Jordan em 1999 (publicado aqui em Superman #12, da linha Premium da editora Abril). Por fim, depois de várias aparições em planos de fundo de histórias mais importantes, Keith Giffen resolve revitalizar o personagem como uma espécie de mentor para o jovem Jaime Reyes, o novo Besouro Azul, durante quase todo o run de sua primeira publicação original, Blue Beetle – Vol. 7 (2006). O que é bacaninha, se pararmos pra pensar que ambos são personagens originais da Charlton.

Até a Tropa Sinestro foi atrás dele no gibi do Besouro Azul.

O interessante é que a DC Comics nunca saiu desse chove-não-molha com o personagem, fazendo a gente até se questionar a validade da compra dos personagens da Charlton nos anos 1980. Claro, em outras mídias, vários desses personagens tiveram diferentes graus de sucesso: Ted Kord, o Besouro Azul, teve bastante destaque durante o seu período na Liga da Justiça de Keith Giffen e J.M. DeMatteis; a nova versão do personagem, Jaime Reyes, ganhou filme e destaque em desenhos animados da DC; o próprio Questão teve arcos de histórias interessantes nos desenhos da Liga da Justiça, até ter o manto assumido pela detetive Renee Montoya, das histórias do Batman. Já o Pacificador, coitado… sempre relegado a um plano de fundo, como um brutamontes dodói das ideias.

Tudo muda com o lançamento do filme O Esquadrão Suicida em 2021. Como o segundo filme da franquia dos heróis-bandidos da DC, o filme foi entregue ao diretor James Gunn, que já estava bem estabelecido como um “salvador de franquias” depois de dois filmes dos Guardiões da Galáxia para o MCU. Na hora de estabelecer uma nova equipe para o filme, ele foi catar no baú da editora diversos personagens com potencial e que poderiam ser facilmente descartados, afinal de contas, a equipe não leva o nome “suicida” à toa. Foi nesse ponto que ele acertou ao escolher o Pacificador e o ator John Cena para interpretá-lo.

Depois do sucesso do filme e da série que leva o mesmo nome do personagem, a decisão de revitalizá-lo mais uma vez e trazê-lo de volta aos quadrinhos era ainda mais acertada. Com isso, ainda em 2021 a DC lançou uma nova revista da equipe, Suicide Squad – Vol. 7, desta vez com o Pacificador bem estampado na capa. Aqui no Brasil, todas as quinze edições saíram em dois encadernados pela Panini em 2022.

Fantasma, Boba Fett e de armadura, as muitas versões do Pacificador como papel de parede.

UMA NOVA ERA DE PAZ

Ainda na rebarba desse sucesso inesperado, a DC volta a capitalizar em cima do Pacificador e parece querer trabalhar melhor a “sinergia” entre o personagem que vemos nos filmes e no streaming com o que os fãs mais novos podem encontrar nos quadrinhos. Curiosamente, parece que o responsável por essa sinergia não tem prestado muita atenção no seu trabalho. Recentemente, a editora lançou dois gibis voltados para o público que acompanha Peacemaker: um gibi mais sério que revê um pouco da história de origem, deixando ela mais próxima do que vimos no seriado; e outro que segue mais a linha de humor chulo e violência que já faz parte do personagem a esta altura.

O primeiro gibi é Pacificador: Perturbando a Paz (2022), lançado pelo selo DC Black Label de quadrinhos adultos e escrito por ninguém menos do que Garth Ennis (Preacher, Justiceiro), com desenhos de Garry Brown (Asa Noturna, DC Comics Bombshells). Pelo autor já dá para notar o caminho que essa história one-shot vai tomar. Ao revisar a origem do anti-heroi, Ennis traz muito da sua bagagem escrevendo o Justiceiro e deixa o personagem um pouco mais parecido com Frank Castle. Some o fantasma do pai nazista, mas os problemas de cabeça permanecem, o novo Christopher Smith cresce órfão em meio a um mundo de violência. Uma coisa interessante é a associação que Garth Ennis faz com o nome pacificador e o conceito de “paz” que ele busca (dica: não é a ausência de conflitos, mas sim o que a gente encontra escrito em uma lápide). É uma HQ boa para os padrões dos fãs do autor, mas pode ser um choque para os fãs do seriado. Saiu aqui no Brasil pela Panini em 2022.

Já o segundo gibi é Pacificador: Um dia de cão, um encadernado que reúne seis edições da minissérie Peacemaker Tries Hard!, de 2023. Também lançado pelo selo Black Label, a história já segue o tom divertido ao qual os fãs mais novos podem estar acostumados, inclusive, o desenhista Steve Pugh (Liga da Justiça, Homem-Animal), faz questão de desenhar o herói com a cara do John Cena. Ao eliminar um grupo de terroristas, o Pacificador encontra um cachorrinho abandonado e resolve adotá-lo, batizando-o de Bruce Wayne. Contudo, ele acaba sendo recrutado pela dupla de vilões Cérebro e Monsieur Mallah para um serviço e, após concluí-lo, os dois acabam sequestrando seu cãozinho. Cabe apenas a Christopher Smith a missão de burlar seu agente da condicional, encontrar os vilões, salvar seu novo amiguinho e talvez salvar o mundo também. O encadernado foi lançado pela Panini em fevereiro de 2025.

Essas são as aparições mais recentes do personagem, se você estiver afim de buscar histórias com ele além das produções do novo DCU. Como eu mencionei antes, o Pacificador sempre foi muito subaproveitado nos quadrinhos desde a sua origem, sempre relegado a papéis secundários e planos de fundo em grandes sagas. Por conta disso, quase não há histórias relevantes com ele para quem quiser conhecê-lo mais a fundo. Porém, vale a pena correr atrás das coisas mais recentes como as duas histórias lançadas pela Panini e a participação dele no Esquadrão Suicida. Eu dei uma lida nas histórias mais antigas para escrever essa coluna e, confesso que não me chamaram muito a atenção. A maioria tem uma arte bem “qualquer coisa” e histórias que não deixam ele muito diferente do que qualquer outro anti-herói armado e violento dos anos 1990.

Então me conta. Você curte o Pacificador? Já conhecia o personagem antes dessa revitalização? Já leu alguma das edições mencionadas? Conta aqui para mim nos comentários!


Classificação Rebobinando:

  • Pacificador: Perturbando a Paz, vale quatro rebobinandos. 📼📼📼📼
  • Pacificador: Um dia de cão, vale cinco rebobinandos. 📼📼📼📼📼