Muitas vezes sentimos saudades dos filmes mais estranhos e nos perguntamos: “como seria se tivessem feito este filme hoje em dia?” A princípio, 50% das vezes temos um filme interessante e 50% das vezes é algo que poderíamos muito bem esquecer que existiu. Dos outros 50% a gente não consegue realmente fugir, porque tudo hoje em dia é um reboot em Hollywood e os últimos 30%, a gente deixa de lado porque eu não sei fazer contas mesmo.
Mas a Rebobinando dessa semana é 100% sobre Corra, que a Polícia vem aí!
Mas na real, Corra que a Polícia vem Aí! é um filme bem marcado por sua época mesmo. Não necessariamente pelas piadas, afinal, muitas delas ainda são boas. A maioria funciona por causa do estilo nonsense e comédia do absurdo, muito embora ainda exista uma piadinha sexista aqui e ali. O que acaba pegando mal mesmo, no fim das contas, é a participação do O.J. Simpson como um ator de comédia, recém-saído de sua carreira no futebol americano, mas “pré-julgamento do século”, o qual abalou profundamente quaisquer planos que ele tivesse para o futuro. Digo isso porque ainda me sinto estranho vendo ele em cena, ao mesmo tempo em que lembro dos jornais brasileiros refletindo as polêmicas dos jornais americanos sensacionalistas em volta do caso. Mas enfim, tirando isso, o filme flui que é uma beleza. Ainda mais porque a participação do ex-jogador é mínima (ainda não revi os outros da trilogia).
Agora que tiramos o elefante branco da sala, vamos aos finalmentes.
TROCALHADORA DE METRADILHOS
Corra que a Polícia vem Aí! é um projeto de longa data do trio de produtores/diretores Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker. Os três foram os responsáveis por alguns dos maiores filmes de comédia pastelão e absurdista dos anos 1980. Apelidados de ZAZ (Zucker, Abrahams & Zucker), quase como se fossem uma firma de advocacia de Nova York, o grupo fez bastante sucesso com os filmes da trilogia do Police Squad (1988, 1991 e 1994), além dos clássicos imemoriais do cinema Apertem os cintos, o Piloto Sumiu! (1980) e Top Secret! Superconfidencial (1984). Todos com fórmulas muito parecidas, mas extremamente engraçados por conta de inúmeras gags visuais de plano de fundo, comédia física e uma bordoada de trocadilhos intensa. Como tradutor, sempre fico pensando em como deve ser difícil traduzir todas as piadas desses filmes para que continuem engraçadas. Nas versões dubladas, infelizmente, muitas delas se perdem na tradução (ou será que ficam mais engraçadas porque fazem menos sentido? Não sabemos).
O fato é que muito da comédia do filme se dá nos detalhes, ainda que algumas das cenas principais tenham um tamanho enorme. Como por exemplo, a cena de perseguição de carro desse primeiro filme, que ocorre depois que um médico tenta assassinar o personagem de O.J. no hospital e é impedido por Frank Drebin. O bandido escapa e pega o carro de um motorista qualquer na rua, enquanto Frank faz o mesmo, mas acaba entrando em um carro de auto-escola com uma adolescente aprendendo a dirigir. A cena vai num crescendo, com vários detalhes idiotas no meio do caminho, somando tudo até terminar de maneira completamente estapafúrdia, com o clássico: “vamos embora, não há nada para ver aqui” em meio à explosões e incêndios.
Contudo, arrisco dizer que, como muita piada depende da surpresa de uma situação absurda, o “fator de reprise” do filme fica meio prejudicado se você tem uma memória muito boa. Mas vai de cada um. Confesso que achei algumas coisas bem engraçadas de novo, mesmo já sabendo o que iria acontecer.
NÃO ENTENDI ESSA REFERÊNCIA
Uma coisa curiosa, no entanto, é que assim como diversos filmes do gênero de comédia, Corra que a Polícia vem aí! não foge do “humor de referência” que muitos reclamam hoje em dia. De fato, depender demais de referências corre o risco de deixar um filme datado e, por exemplo, o impacto da abertura de Shrek 2 pode ser cada vez menor conforme as novas gerações descobrem o filme sem terem visto antes o primeiro Homem-Aranha de Sam Raimi, ou mesmo O Senhor dos Anéis do Peter Jackson.
Segundo os próprios produtores de Corra que a Polícia vem aí!, a inspiração geral para o filme veio de um seriado dos anos 1950 chamado The M Squad. Era uma série policial extremamente popular nos EUA que durou de 1957 até 1960, com o ator Lee Marvin no papel principal do detetive tenente Frank Ballinger. A história se passava em Chicago e o tal do M Squad era uma divisão especial da polícia que investigava esquemas de corrupção, crime organizado e crimes violentos na cidade. Obviamente, o Esquadrão M foi a inspiração principal para o Police Squad de Zucker, Abrahams e Zucker, assim como Frank Ballinger inspirou a criação do tenente Frank Drebin.
O grupo de diretores, depois do enorme sucesso de Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu! (1980), quiseram imediatamente trabalhar com uma paródia do seriado policial, mas não conseguiram estabelecer um plot que os agradasse o suficiente. Contudo, graças a Michael Eisner (o babaca), que era presidente da Paramount na época, o grupo conseguiu transformar essa paródia policial em um seriado de seis episódios apenas, batizado de Police Squad. A série teve uma audiência irrelevante e hoje em dia atingiu o status de cult. Ainda assim, muito pouca gente sequer sabe que ela existiu. Apesar disso, ela tinha algumas piadas boas (como os atores ficando parados como estátuas no final de cada episódio, simulando um freeze-frame), com algumas delas inclusive sendo reaproveitadas no filme de 1988. Depois da série, os ZAZ ainda conseguiram emplacar dois filmes de comédia com variados graus de sucesso nos anos seguintes: Top Secret! Superconfidencial em 1984 e Por Favor, Matem minha Mulher! em 1986.
O nome original do filme, inclusive, deveria ter sido Police Squad, porém na época uma outra franquia de filmes de comédia envolvendo policiais também estava fazendo muito sucesso: Loucademia de Polícia. Com um filme da franquia sendo lançado POR ANO desde 1984, a Paramount ficou receosa de que o público confundisse seu filme com a sexta ou sétima iteração da trupe de policiais liderada por Steve Guttenberg, então ofereceram uma lista de nomes aos ZAZ, que escolheram “the naked gun”, ou “a pistola nua” em português. Segundo uma entrevista com os três, esse nome foi o escolhido porque “prometia muito mais do que eles poderiam ser capazes de entregar” com o filme. Para não deixar dúvidas, ainda emplacaram um subtítulo para fazer a ligação com sua série de TV fracassada e assim surgiu The Naked Gun: From the Files of the Police Squad. Um nome enorme, é verdade, mas muito bem adaptado para o português como “Corra, que a Polícia vem aí!”.
Além de M Squad, várias outras produções são parodiadas no meio da história. Algumas das mais notórias são Dirty Harry: Perseguidor Implacável (1971), quando Frank reclama que ao ver uma pessoa ser esfaqueada por várias outras, ele atira primeiro e pergunta depois (era uma apresentação de teatro de Julius Cesar); O Último dos Valentões (1975), mais especificamente a cena da escada em que Jane tropeça ao conhecer Frank, além do voiceover em que ele descreve grosseiramente o corpo da moça; e também O Dia do Chacal (1973), com o assassinato de uma figura importante como a força-motriz do plot (no filme original era o presidente francês Charles de Gaulle, na paródia virou a Rainha Elizabeth II).
Muitas dessas referências atualmente podem parecer ainda mais perdidas… como lágrimas na chuva.
O SUCESSO, A FRANQUIA E SEPARAÇÕES
O filme foi lançado em dezembro de 1988 nos EUA, chegando ao Brasil pouco tempo depois, e foi um sucesso de bilheteria em suas primeiras semanas em cartaz. O filme arrecadou cerca de 150 milhões de dólares mundialmente, em cima de um orçamento de meros 12 milhões USD, o que o classifica como um baita sucesso. Até hoje o filme é bem conceituado entre seus diversos fãs, com altas notas em outros tantos sites de avaliação de filmes (Rotten Tomatoes, Metacritic e afins). Até mesmo os críticos de cinema, tão difíceis de agradar quando o assunto é uma comédia pastelão, costumam dar o braço a torcer com relação a este filme.
O trio dos ZAZ ainda conseguiu esticar a fórmula do “humor idiota com cara de sério” em uma trilogia que avançou pelos anos 1990, com Corra, que a Polícia vem Aí! 2 ½ (1991) e Corra, que a Polícia vem Aí! 33 ⅓ (1994), antes de se separar de vez por diversos motivos (um deles, absolutamente fiscal, diga-se de passagem, já que os três assinavam os filmes como diretores, mas o salário tinha que ser dividido entre todos no fim). Cada um seguiu seu caminho, mas com algumas sobreposições ao longo dos anos.
Jim Abrahams acabou dirigindo outros dois clássicos pastelões da sessão da tarde: Top Gang (1991) e Top Gang 2: A Missão (1993). David Zucker foi um dos mais ativos como diretor nos anos seguintes, ainda trabalhando com comédias, mas sem o mesmo brilho dos trabalhos em conjunto com seus colegas. Talvez seu maior destaque tenha sido a direção e produção das continuações Todo Mundo em Pânico 3 (20030, 4 (2006) e 5 (2013), que estão entre as piores continuações dessa franquia. E por último, Jerry Zucker, que dirigiu somente o maravilhoso e subestimado Rat Race (2001), que provavelmente só não é conhecido por mais gente no Brasil por conta do péssimo título em português: Tá Todo Mundo Louco: Uma Corrida Por Milhões. De todos os três, Jerry é o único envolvido na produção do reboot atual, com Liam Neeson. Jim faleceu em 2024, com 80 anos.
E você? É fã de Corra, que a Polícia vem Aí! (meodeos que ÓDIO ter que escrever esse título gigante toda hora)? Ou só curte o Leslie Nielsen e comédia pastelão? Acha que o reboot vai dar caldo, ou que é impossível fazer um filme nos mesmos moldes do antigo nos dias de hoje? Conta aí para mim nos comentários.
Corra, que a Polícia vem Aí! (1988) vale cinco rebobinandos. 📼📼📼📼📼








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