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O jogo de terror que deu início a uma enxurrada de mortos-vivos no início do séc. XXI.
Antes dos zumbis maratonistas, antes dos zumbis cogumelos, antes até mesmo dos zumbis inteligentes, houve um jogo que foi o responsável por criar um novo gênero de jogos de videogame e de reacender o interesse nos mortos-vivos comedores de carne humana. Pega seu estoque limitado de munição e vem comigo rebobinar Resident Evil (1996).
Antes de mais nada, acho importante mencionar que nunca fui um jogador de Playstation. Durante os anos 1990 os principais videogames com o qual tive contato foram o meu bom e velho Mega-Drive e o Nintendo 64. Só lá pelos idos de 2013 que fui adquirir o meu primeiro PlayStation (o PlayStation 3, no caso). No entanto, por boa parte dos anos 2000 acabei tendo contato com as versões anteriores do console graças ao meu grupo de amigos e, com isso, provavelmente algum tempo depois do lançamento do filme de Resident Evil em 2002, finalmente tive uma breve oportunidade de jogá-lo.
Vou adiantando que não foi uma experiência muito maravilhosa. Nessa época eu ainda estava acostumado com jogos de tiro em primeira pessoa e, além disso, os controles do jogo eram confusos o bastante para me fazer perder o interesse rápido. Sem contar que o gênero de “terror” em geral já é algo que não me anima muito (eu sou super impressionável, morro de medo de tudo), então esse tipo de tensão era um pouco demais para o meu gosto. Logo em seguida, me puseram para jogar Fatal Frame e, putz, nunca mais. 💀
O RESIDENTE DO MAL
Mas uma coisa que não dá para negar é a importância de Resident Evil na cultura pop dos anos 2000 (apesar de ter sido lançado em 1996, claro). Baseado num jogo de horror japonês de 1989 para o Nintendinho, o tal “hóspede maldito” foi o responsável por reacender o interesse do público em geral nos zumbis, que gerou inúmeras outras obras ao longo dos anos, chegando até a “febre zumbi” do início dos anos 2000.
Sério, temos os filmes Extermínio (2002), Todo Mundo Quase Morto (2004), Madrugada dos Mortos (2004), [REC] (2007); além deles, os jogos Fatal Frame (2001), Silent Hill (1999), Survival Crisis Z (2004), Left 4 Dead (2008); sem falar nos quadrinhos The Walking Dead(2003) e até mesmo Marvel Zombies (2004). Ou seja, foi uma década da gente chafurdando em histórias sobre mortos-vivos e técnicas de sobrevivência!
Apesar dos controles confusos, Resident Evil gerou de fato uma revolução nos videogames! O maior problema, no entanto, era o uso do famigerado “controle de tanque”com uma câmera fixa, em vez de uma configuração em “terceira pessoa, por cima do ombro”.
ー Hein? Tio Kadu, explica em português por favor!
Claro. O tal “controle de tanque” em si, não é algo muito ruim. Significa que se você mexe o direcional do controle para frente ou para trás, o seu boneco anda nessas direções. Porém, se você mexe para a direita ou esquerda, ele não anda de lado, mas gira nessas direções. A maior parte dos jogos hoje em dia ainda utilizam essa configuração de controle, diga-se de passagem, mas como a câmera do jogo acompanha o personagem na tela, isso não gera tanta confusão. Em Resident Evil isso atrapalhava um bocado porque a câmera do jogo ficava parada e mudava sempre que o personagem saía de um cômodo para outro… então dependendo do sentido em que você estava correndo, seu boneco ficava girando igual a um peru bêbado no meio de uma sala cheia de zumbis famintos! E NINGUÉM QUER UMA COISA DESSAS, NÉ?
Apesar disso, a ambientação de terror e as dinâmicas de tiro foram inovadoras o suficiente para fazer com que o jogo caísse no gosto do povo e virasse uma das franquias mais populares dos videogames por muitos anos. E sim, alguns meses depois foi lançado o primeiro Tomb Raider que, na minha humilde opinião, tinha controles bem melhores… Mas isso não vem ao caso agora.
Esse vídeo explica bem a diferença de posição de câmera usando o tal “controle de tanque”, mas tá só em inglês, sorry.
O HÓSPEDE MALDITO
Como mencionei antes, a ideia do jogo inicialmente veio de um jogo do Nintendinho, chamado Sweet Home. Era um jogo de terror/sobrevivência em que uma equipe de filmagem entra em uma mansão assombrada para fazer um documentário. Cada um dos cinco personagens tem um item específico e são capazes de ações específicas que podem servir em vários momentos do jogo. Além disso, eles têm um espaço de inventário bem limitado, que pode dificultar as coisas quando o jogador estiver próximo do endgame.
O curioso é que, se você procurar o gameplay desse jogo do Nintendinho, vai notar todas as semelhanças que inspiraram o Resident Evil original. O inventário limitado, a imagem das portas abrindo como forma de disfarçar o carregamento de telas, a história se passando no interior de uma mansão cheia de monstros…
Enfim, Sweet Home foi lançado em 1989, criado por Tokuro Fujiwara, o próprio criador de Resident Evil. Seu plano inicial era de fazer uma continuação do jogo para o Super Nintendo, mas por conta de problemas com os direitos da obra, isso acabou não indo para a frente… O tal do Sweet Home 2 então precisou ser reformulado e em 1993, chegou até a ser concebido como um jogo de tiro em “primeira pessoa” 3D. No fim, em 1994, tanto Fujiwara quanto o diretor do projeto, Shinji Mikami, decidiram transformá-lo em Biohazard e colocar o jogo em “terceira pessoa”!
ー Peraí, Biohazard?
Pois é, inicialmente Resident Evil iria se chamar Biohazard. Porém, por causa de um joguinho de 1992 chamado Biohazard Battle (e de uma banda de heavy metal alternativo de NY que também usava o mesmo nome), ficou impossível para os criadores registrarem o nome “biohazard” nos EUA. Por conta disso, o time de marketing da Capcom teve que correr atrás de um título novo para o jogo. Os desenvolvedores fizeram um pequeno concurso entre os funcionários e “Resident Evil” foi o que gerou mais burburinho e acabou pegando. A desculpa para o novo nome foi de que como o jogo se passa numa mansão, isso justificaria o termo “resident”; e como ela é mal-assombrada, ou er… “maligna”, então isso justificaria o “evil”. E todo mundo aceitou.
Isso porque, a princípio, todo o foco do jogo era o fato de que ele seria uma “continuação não-oficial” do velho Sweet Home. No entanto, com o passar do tempo e o desenvolvimento da trama indo para os lados da conspiração de uma empresa inescrupulosa de biotecnologia, o tal “morador maligno” foi fazendo cada vez menos sentido. Mas enfim, até aí o jogo FINAL Fantasy tem inúmeras continuações, né? Então quem tá contando?
Uma curiosidade foi que vários aspectos da mansão foram baseados no Hotel Overlook do filme O Iluminado. Imagina encontrar um Jack Nicholson zumbi no meio do jogo? Brrrr…
O MORADOR MALIGNO
A história do jogo é bem direta. Após uma série de assassinatos misteriosos em Raccoon City, a polícia da cidade manda uma equipe de especialistas para investigar. Quando ela desaparece sem deixar vestígio, a polícia envia OUTRA equipe (porque, CLARO que você vai enviar outra equipe, né?) e é aí que o jogador entra. Quando os agentes Chris Redfield, Jill Valentine, Albert Wesker e Barry Burton chegam ao local de helicóptero, são atacados por cachorros-monstros, o que faz o piloto de helicóptero sair correndo… ou melhor, voando, abandonando todo mundo à própria sorte.
Dependendo do personagem que o jogador escolher (Chris ou Jill), um dos outros coadjuvantes desaparece antes de entrarem na mansão (Barry, no caso do Chris e o próprio Chris, no caso da Jill). Aos poucos, ao investigar a “residência do mal”, vamos descobrindo que tudo não passava de um projeto de experiências ilegais da empresa biomédica Umbrella Corporation. Eles desenvolveram um vírus mutagênico chamado T-virus, que foi o responsável por criar todos os monstros que vagam pela mansão. É possível ainda encontrar alguns sobreviventes da primeira equipe enviada, que contam ao jogador que um dos membros da equipe atual é um traidor.
Depois de descobrir um laboratório escondido embaixo da mansão, o jogador precisa enfrentar o tal traidor, que se revela como Albert Wesker! Ele conta que é um agente duplo da Umbrella Corporation e que pretende usar o Tyrant um super soldado mutante para eliminar todos os agentes da polícia e, sei lá, conquistar o mundo? Vender pro exército? Alguma coisa do tipo.
O jogo possui múltiplos finais diferentes, dependendo do personagem escolhido no início e também de quais outros personagens você conseguiu deixar vivos. O melhor final é quando você salva o seu parceiro de jogo e também um dos agentes presos no laboratório. Com isso, a mansão é destruída e o soldado Tyrant também. Se você não conseguir libertar o agente preso, mas salvar o seu parceiro (Rebecca Chambers, no caso do Chris e Barry no caso da Jill), a mansão é destruída, mas Tyrant consegue fugir.
Pontos Fortes
- Inovador. Sem sombra de dúvida, foi um jogo inovador em vários aspectos. Não que não houvesse outros jogos com mecânicas parecidas antes, mas aqui foi tudo muito bem aplicado em conjunto com uma história intrigante e um nível de desafio alto. Não foi a toa que o jogo despertou um novo interesse em histórias de zumbis que durou mais de uma década.
- Horror. Além da cultura pop em geral, Resident Evil ainda ajudou a sedimentar a ideia de que jogos de horror/sobrevivência podem funcionar muito bem, se forem bem feitos. Seja com zumbis fúngicos, fantasmas fotográficos ou em colinas silenciosas.
Pontos Meh
- Câmera fixa. Odeio jogo em 3D com câmera fixa. Acho impensável algo do tipo em uma época em que Mario 64 e Zelda 64 te deram toda uma nova sensação de liberdade nos games.
- Spin-offs. Não é por nada, mas a trama do primeiro jogo é uma ação tão redondinha (previsível? Sim, mas redonda), que é meio absurdo que os filmes simplesmente tenham decidido ignorar tudo isso, incluindo os personagens principais. São SEIS filmes e nenhum deles é bom.
Agora, em 2026, a Capcom lançou mais uma nova continuação da série de games com Resident Evil: Requiem para diversos consoles da nona geração. E, sem surpresa nenhuma, o jogo continua fazendo sucesso, mesmo sem a “onda zumbi” que varreu o início dos anos 2000 dando fôlego. O jogo traz de volta um dos protagonistas que foi apresentado láááá em Resident Evil 2, Leon S. Kennedy e apresenta uma nova protagonista, a agente do FBI Grace Ashcroft. A trama continua cerca de 14 anos após os eventos de Resident Evil 6 (2012) e a essa altura, já foram embora os elementos de “mansão assombrada” que inspiraram o jogo original. Ainda assim, o jogo mantém alguns aspectos de perseguição em lugares fechados, quebra-cabeças, ação e sustões tão clássicos da série de games. Se você é fã da franquia e ainda não jogou, vale a pena correr atrás. Enquanto isso, eu vou ali jogar Pokémon, sabe?
Resident Evil (1996) vale oito rebobinandos. 📼📼📼📼📼📼📼📼







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