Screenshot de uma cena feita com Alicia Vela-BaileyMulher Maravilha estreou no Brasil na quinta feira passada, 1º de junho, e foi muito bem recebida pela plateia e pela crítica — algo que a DC não vinha conseguindo fazer desde o Batman de Nolan. O sucesso de público levou a US$223 milhões de bilheteria no mundo todo até o momento e se tornou o filme dirigido por uma mulher (Patty Jenkins) com a maior estreia na história dos Estados Unidos. Ao contrário da origem do Batman, que já foi recontada nos cinemas quase tantas vezes quanto já houveram filmes do Batman, essa foi a primeira vez que vimos a origem da Mulher Maravilha na tela grande. E Gal Gadot, que já tinha nos conquistado com sua breve aparição na grande bagunça que foi Batman vs Superman, confirma sua carismática encarnação, e mais uma vez, nós traz algo de bom no meio dos vários erros do universo cinematográfico da DC.

Mas embora Gal Gadot seja uma excelente atriz e esteja em grande forma, não é ela sozinha quem empresta o corpo para a Mulher Maravilha. Algumas cenas são arriscadas demais ou demandam habilidades muito específicas que para serem feitas com a perfeição necessária em tela demandam uma vida dedicada a estas atividades. É aqui que entram as dublês que também trabalharam no filme.

Dublês tendem a ter um trabalho inglório. Eles fazem as cenas mais perigosas, que tem grande impacto na tela, mas sem terem seus rostos e nomes conhecidos pelo grande público. Faz parte do trabalho, já que a magia do cinema é justamente fazer parecer que tudo foi feito pela mesma pessoa. Ainda assim, todos nós que amamos cinema de ação temos sempre muita curiosidade para saber quem são esses artistas de ação e conhecer mais dos truques que são feitos para que aquelas cenas tão emocionantes cheguem a telona. Por isso, o Sétima Cabine resolveu fazer uma série de artigos sobre essa arte, e qual o melhor lugar para começar se não o filme da super heroína do momento? O sétima teve um bate-papo exclusivo com Alicia Vela-Bailey, uma das dublês na equipe do filme que tiveram a honra de encarnar a Mulher Maravilha nestas A bela Alicia Vela-Bailey cenas, e ela partilhou conosco algumas fotos dela no set. Então bem vindos ao primeiro de uma série de entrevistas e artigos sobre dublês e seu imprescindível trabalho no cinema de ação!

Além do seu trabalho em Mulher Maravilha, Alicia fez parte da equipe de dublês de Avatar, de James Cameron, foi dublê de Kate Backinsale na franquia Anjos da Noite e de Anne Hathaway em Interestelar.

Pra este filme eu precisei mudar minha rotina de exercício e alimentação. Naturalmente meu corpo é de bailarina, dançarina. Todas nós precisamos mudar nosso corpo para o de fortes amazonas.” Nos conta Alicia, sobre a preparação para o filme Mulher Maravilha. “Todas as mulheres no filme tiveram que passar por isto. Nós aproximou bastante, estávamos lá para apoiar uma a outra, o que é muito legal.

Alicia cresceu no Hawaii, na ilha de Oahu. Desde pequena seus pais a incentivaram a fazer dança e ginástica olímpica. “A idéia de ser dublê nunca passou pela minha cabeça, enquanto eu crescia. Nem sabia direito o que era, pra ser honesta. Mas meu tamanho e minhas habilidades com dança e ginástica olímpica acabaram me diferenciando e me dando uma oportunidade nesta carreira. Minha experiência com dança ajuda muito com as coreografias de luta, sejam com armas ou wire work (quando o dublê é suspenso por cabos de aço para simular saltos fantásticos ou voo). Ser capaz de aprender rápido e adaptar os movimentos com facilidade realmente me ajudou nisto. A ginástica olímpica ajuda com as cambalhotas, a consciência corporal tanto no ar quanto no solo e ajuda com saber como levar quedas, levantar e estar pronta pra outra.” Embora o mais comum seja associar artes marciais com o trabalho dos dublês — não por acaso já que as sequências de ação tendem a envolver muitas lutas — o trabalho mistura habilidades de diferentes atividades.

É bastante comum encontrar gente com experiência em dança, como Alicia, e algum contato com ginástica olímpica é praticamente obrigatório para ser um bom dublê. “Também aprendi como confiar e acreditar em mim mesma sobre pressão nas competições e apresentações. É algo que eu nem percebi que estava aprendendo na época, mas que fico muito feliz de ter aprendido na ginástica olímpica e na dança e que conta muito hoje em dia no trabalho.Alicia Vela-Bailey com uma roupa de Amazona entre as filmagens

Além de terem que mudar alimentação para chegar ao corpo de amazona imaginado para o filme, Mulher Maravilha teve um diferencial em particular sobre outros trabalhos para a equipe de dublês, conta Alicia. “Geralmente na maior parte dos trabalhos de dublê que fiz eram sempre um monte de caras e só eu e talvez uma ou outra mulher, se tivesse sorte. Mas este filme foi diferente. A maioria de nós éramos mulheres. Não me entenda mal, ainda tinha muitos homens, mas foi o filme com mais mulheres no departamento de dublês que eu já trabalhei e foi maravilhoso!” O filme também é o primeiro filme estrelado por uma super heroína em dez anos, e é encabeçado por uma mulher na direção. “Foi tão divertido trabalhar com Gal Gadot e Patty Jenkins, me senti muito honrada e com muita sorte de fazer parte deste projeto e trabalhar com tantas mulheres fantásticas.

Além de ser uma produção com tantas mulheres talentosas, outra coisa que diferencia Mulher Maravilha de outros trabalhos de dublês é o fato de ser um filme de super-heróis. É preciso simular estas habilidades e poderes sobre-humanos, e aí entram várias técnicas tradicionais ou novas que ajudam os dublês a levarem para a telona a ilusão. Os chamados CGI, gráficos digitais que são inseridos no filme na pós produção, fazem parte dessas técnicas. Alicia nos conta um pouco sobre como é que isto impacta o trabalho de dublê: “Pode ser um pouco complicado lutar com personagens de CGI às vezes.” Estamos acostumados a pensar em como é para os atores interagirem com personagens que na hora da filmagem não estão lá, qual o impacto quando a interação é uma luta? “Com um pouco de imaginação, dá pra ser bem divertido [filmar essas cenas]. Para mim é como dançar. Eu não me incomodo de dançar sozinha, fazendo de conta que tenho um parceiro. Assim consigo fingir que estou lutando com um personagem que não está lá ou que vai ter um tamanho e formato diferente quando o filme for finalizado. São esses pequenos desafios que deixam o trabalho divertidoAlicia Vela-Bailey com a roupa da Mulher Maravilha

Estar no set de filmagens de Mulher Maravilha definitivamente parece ter sido uma experiência única, mas Alicia também nos conta um efeito inesperado da experiência. “As roupas das amazonas eram ótimas e faziam você parecer forte e confiante só de estar usando.” Depois de filmar por muitas horas no sol da Itália, quando as atrizes e dublês finalmente podiam sair e descansar um pouco, e notar uma novidade… “[As roupas] produziram as marcas de bronzeamento mais estranhas que já vimos! Era muito divertido ver todas sem as fantasias e com as marcas de bronzeado mais loucas.

Apos essa breve espiada por trás da cortina e sobre a vida e o trabalho de uma dublê numa super produção como essa, esperamos que vocês estejam começando a ter uma idéia sobre como é o trabalho dos dublês e sobre o esforço para construir as famosas cenas de ação. Temos mais artigos e mais entrevistas agendadas, acompanhando as produções atuais e falando sobre experiências anteriores. Não deixem de vir conferir!