“The old world will burn in the fires of industry. The forests will fall. A new order will rise. We will drive the machinery of war with the sword and the spear and the iron fist of the Orc.”

Saruman, As duas torres

Nas obras de J. R. R. Tolkien, Saruman (também conhecido como Curunír ou Curumo) era o líder dos Istari, magos com o objetivo de ajudar a Terra Média, e antagonista nO Senhor dos Anéis. Os cinco magos eram alguns dos Maiar, espíritos angelicais que serviam aos Valar, cada um deles servindo a um Vala em específico. Curumo servia ao Vala Aulë, um construtor, artífice e criador dos anões. Analisando os problemas da Terra Média, o mal que se afincava cada vez mais nela, os deuses decidiram por enviar cinco desses espíritos encarnados em forma humana para aconselhar os povos livres na aflição, no entanto alguns deles se sarumandesviaram um pouco ou completamente do caminho, como foi o caso de Saruman.

O ponto que quero discutir nesse texto é um dos arquétipos que perpassa o inconsciente coletivo da humanidade e que Tolkien usou de Saruman para abordá-lo em sua obra: a dicotomia entre a natureza e a indústria.

Nascido em 1892, no final da Era Vitoriana, Tolkien esteve muito próximo das muitas das grandes mudanças que ocorreram na sociedade inglesa por causa da segunda revolução industrial. Lendo sua obra percebemos a romantização e predileção, ao menos esteticamente, pelo estilo de vida dos Hobbits, estilo de vida esse que se muito afasta da Inglaterra Vitoriana, de sua época, socialmente decadente que acordava e dormia com a fumaça em seus pulmões de ferro.

Corey Olsen, professor do Washington College, diz: “Tolkien era muito preocupado, desde a infância, com o processo de industrialização, em grande parte porque ele o via como um reflexo da corrupção humana. Isto é, na opinião dele, o impulso de industrializar estava intimamente conectado com o impulso de dominar, e para Tolkien, o desejo de dominar é o mesmo, quer se dominem pessoas ou árvores e plantas.(Citação retirada do episódio A Mitologia de Tolkien, do documentário Confronto dos Deuses, produzido pelo History Channel)

Em Tolkien, Saruman representa essa decadência, o mago que virou as costas para o seu dever designado por Aulë e, em busca de poder, abraçou aquilo que não era natural. Saruman arquetipicamente, se usarmos da aplicabilidade que as obras de Tolkien dão, é o grande industrial. As fornalhas em Isengard funcionavam dia e noite, a fumaça escura nunca cessava e lá produziam-se espadas, lanças, escudos, armaduras e o ódio. Para isso eram necessárias grandes quantidades de recursos naturais, que ele não poupava forças para conseguir; o som dolotr-saruman-read-you-fools-take-a-look-at-the-5-weirdest-lord-of-the-rings-theories-on-the-internet-png-238579s machados preenchia as noites. O nome Saruman significa “homem de habilidade” e o que melhor exemplifica o porquê desse significado, além do desenvolvimento de bombas usando a pólvora, foi o artifício de conseguir unir mágica ou geneticamente homens com orcs para fazer com que estes últimos adquirissem resistência à luz solar, criando os Uruk-hai, utilizando de seu intelecto para ir de encontro a ordem natural e moldá-la a seu favor, mesmo que significasse desrespeitá-la na forma mais essencial: corromper mais ainda a obra do criador.

Saruman foi descrito por Barbávore, o Ent, como tendo uma “mente de metal e rodas”, uma belíssima metáfora imagética para as engrenagens fabris mas, além disso, também para a mente que, como as máquinas, é capaz de feitos brilhantes, no entanto, é desprovida de moral; para Tolkien, Saruman em sua busca por poder ignorou o que é certo e errado e, como uma máquina, perdeu a humanidade… E quem um dia perde a humanidade é capaz de feitos terríveis. Um outro que começou como servidor de Aulë foi Sauron, mas que também se voltou para a escuridão, sendo essa uma das formas de Tolkien mostrar que se o ser humano não policiar os seus desejos de artífice poderá criar coisas que não são preferíveis, como o Um anel ou como o revólver, para ilustrar.

E tentando entender Saruman me propus um exercício que inicialmente me pareceu engraçado, que foi tentar olhar sob seu ponto de vista. O que Saruman, o de muitas cores pensaria se sua mente de metal e rodas estivesse na realidade do nosso mundo hoje? O que começou como uma brincadeira, terminou quase me assustando, pois quantos de nós não pensamos dessa forma ou, pelo menos, um pouco como ela? Vejamos:

A destruição do meio ambiente nos proporcionou um melhor estilo de vida, com os agrotóxicos conseguimos produzir muito mais alimentos; com todo o CO₂ na atmosfera conseguimos produzir itens inimagináveis como carros, computadores, celulares, máquinas médicas, etc.; desrespeitando a natureza conseguimos até desenvolver vida, como a ovelha Dolly. Os seres humanos em primeiro lugar, devemos preservar na natureza apenas aquilo necessário para nossa sobrevivência… Talvez com o tempo necessitemos cada vez menos dela, poderemos moldá-la a nós ou nos moldarmos para sua inexistência: Marshall, se vivo, cairia de costas ao ver como desfizemos seus cálculos.

A cada passo que damos em direção ao progresso, é um passo que nos afastamos do natural e, consequentemente, do divino… Porém não precisamos de deus ou natureza se como artífices temos a perícia e com ela construímos um novo tipo de sociedade, uma nova ordem, a nossa Torre de Babel para conseguirmos, enfim, o nosso estilo de divindade.

The Wrath of the Ents, by Ted Nasmith

The Wrath of the Ents, by Ted Nasmith

O homem com sua inteligência e sua capacidade de construir às vezes se assemelha a deuses. Quando criamos a penicilina, éramos deuses, quando criamos a internet, éramos deuses, quando criamos a bomba atômica, éramos deuses. Cada passo é uma busca para irmos além, como no mito bíblico da Torre de Babel. No entanto, o destino de Saruman não foi a glória, como já sabido; os Ents, seres representantes da natureza, destruíram todas as criações de Saruman e lhe minaram todo o poder, da mesma forma que a Torre de Babel foi destruída. Mas agora, de onde vêm esses símbolos mitológicos e recorrentes de triunfo da natureza? Eles são verdadeiros? Já conhecemos a resposta que Saruman daria: vêm do medo inconsciente dos homens fracos de usarem as suas capacidades até o fim.

 

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O descaminho de Saruman, por Isabela Abes Casaca