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Devoradores de Estrelas é um filme sobre esperança e torcida pelo futuro da humanidade. Chris Miller e Phil Lord trazem um espetáculo visual típico de suas obras mais recentes, repleto de bom humor e momentos de fazer o povo chorar. Ryan Gosling tem química até com uma pedra.
“Meu amor, olha só hoje o sol não apareceu. É o fim da aventura humana na Terra.” Curioso como a canção original composta pelo italiano Umberto Tozzi (e popularizada por aqui pela banda Rádio Táxi em 1983 e Ivete Sangalo em 1997) fala sobre o fim do mundo em um desastre nuclear, mas se aplica de forma perfeita ao tema de Devoradores de Estrelas, o filme mais recente produzido e atuado por Ryan Gosling e dirigido por Phil Lord e Chris Miller.
Baseado no best-seller do mesmo autor de Perdido em Marte (2011), Andy Weir, Devoradores de Estrelas conta a história de um professor de ciências do Ensino Fundamental que de repente se vê isolado em uma nave espacial em um outro sistema solar a cerca de 11 anos-luz de distância, com a missão descobrir como e por que o nosso sol está se apagando aos poucos. E com isso, salvar a vida de toda a raça humana. Basicamente, os mesmos desafios de uma quinta-feira comum para qualquer trabalhador da rede de ensino pública ou privada.
O livro acompanha Ryland Grace, o tal professor, conforme ele vai se lembrando de sua missão no espaço depois de um coma induzido de muitos anos, em uma série de flashbacks misturados com suas ações no presente e descrições de processos científicos que ele utiliza para tentar resolver o problema do nosso planeta. A vibe é bastante parecida com Perdido em Marte, em que ele registra tudo o que faz em uma espécie de diário de bordo (que no livro é escrito e no filme é gravado em vídeo, obviamente). O livro inteiro é repleto de “ciência”, da mais simples à mais complexa, o que é um deleite para qualquer fã de hard science fiction e ficção especulativa, mas também tem uma alta dose de bom humor e, por que não, esperança. Já que ultimamente as coisas na “vida real” têm andado bastante apocalípticas por si só.
Caso você ainda não tenha lido o livro, fica aqui minha recomendação. Pode ir atrás dele sem medo que você não vai se arrepender. Ainda mais se você já viu o filme. O que talvez não seja o caso, porque senão você não estaria lendo essa crítica aqui. Sei lá. Pega os dois. Vale a pena. São incríveis. Incríveis. Incríveis. 👎👎
TÁ, MAS E O FILME?
Andy Weir não dá ponto sem nó e antes mesmo da publicação do livro, ele ofereceu os direitos para a produção do filme a Ryan Gosling, que se apaixonou pela história ainda em seu primeiro tratamento. Em entrevistas o autor comenta que não faz um “fancast” dos seus livros, mas só pelo seu tino de negócios, ele obviamente tinha o Ryan Gosling na cabeça na hora de estabelecer seu personagem principal.
O roteiro ficou nas mãos do competente Drew Goddard, responsável pela adaptação de Perdido em Marte, de 2015, além dos filmes da trilogia de Cloverfield e o excelente O Segredo da Cabana, de 2011. Por já ter experiência com ficção científica e com uma adaptação de outro sucesso de Andy Weir, Goddard faz um ótimo trabalho aqui, deixando a parte científica um pouco mais concisa (mas sem ignorá-la por completo) e desenvolvendo bastante o relacionamento do protagonista com os outros seres vivos que ele encontra em seu caminho. Razão e coração são duas partes igualmente importantes para contar essa história.
Na direção, temos outras duas estrelas já bem badaladinhas de Hollywood por conta de inúmeros sucessos recentes: Chris Miller e Phil Lord. Como idealizadores das franquias do Aranhaverso e dos filmes Lego, eles trouxeram toda sua experiência em trabalhar com visuais impressionantes e um roteiro cheio de bom humor e improviso para dar a vida necessária que uma história dessas pedia. E é incrível como o filme brilha na parte visual. A opção dos diretores de usar boa parte de sets reais, construídos para deixar os atores mais imersos, com um uso muito pontual de telas verdes e CGI (que em entrevistas eles garantem que não tem, mas eu tenho lá minhas dúvidas) também ajuda demais na hora de deixar o sci-fi com mais cara de hard do que de fantasia. Em uma determinada cena, Ryland Grace, o personagem principal, está do lado de fora da nave envolto em um mar de luz infravermelha que os diretores conseguiram captar os closes de forma prática, que é bem bonita.
A HISTÓRIA
E aqui fica o alerta de spoiler. É difícil fugir de alguns segredos da produção à essa altura porque foi uma escolha de todos os envolvidos deixar claro alguns pontos de virada da trama logo de cara. Apesar de ser um incentivo para o público médio, se você ainda não leu o livro e sabe pouco sobre a história, recomendo ir no escuro mesmo, porque é bem mais divertido. Pode parar de ler a crítica por aqui mesmo. Caso contrário, sigamos em frente com o alerta.
[[ ALERTA DE SPOILER ]]
Antes de mais nada, eu particularmente também não curto muito a tradução do nome do livro e do filme para o português. No original, o nome Project Hail Mary traz uma carga de derrotismo e inevitabilidade grande, sem entregar nada do plot até que você entenda o que está em jogo. Devoradores de Estrelas já te diz imediatamente qual é o problema.
Precisamos entender que a expressão Hail Mary em inglês tem um significado maior do que só “Ave Maria”. É uma expressão que é comumente usada em situações difíceis, em que uma solução é algo quase inviável. Fazer uso de um hail Mary em inglês significa utilizar todos os recursos possíveis para alcançar seu objetivo. É um último recurso. Eu adoraria que o nome do livro (e do filme) seguisse essa ideia original e se chamasse algo como “Missão: Último Recurso”, ou “Projeto: Agora Entreguei pra Deus” ou ainda “Missão: Pequena Eva”. 😜
Mas que seja, quando a própria produção do filme e a tradução não se preocupam com spoilers, não sou eu que vou ser o inconveniente.
O fato é que, durante uma missão espacial, a NASA e diversas outras agências descobrem que algo está fazendo a potência do nosso sol diminuir. Na velocidade em que está, a Terra poderia chegar a um inverno generalizado em questão de umas poucas décadas. Uma administradora chamada Eva Stratt (Sandra Hüll, Anatomia de uma Queda) é convocada para organizar uma força-tarefa a fim de descobrir o que está acontecendo. De mente aberta e bastante maquiavélica, no sentido de fazer o que for preciso para garantir a sobrevivência da raça humana, ela começa a reunir cientistas, agências espaciais e exércitos do mundo inteiro para chegar a uma solução. Entra então Ryland Grace, um professor de ciências do ensino fundamental que abandonou a promissora carreira de cientista após a publicação de um estudo que ia contra diversas convenções científicas.
Ele acaba descobrindo algo que batizou como astrofágicos, seres microscópicos que consomem energia solar para se reproduzir e movimentar pelo universo. Ao redor de nossa galáxia, várias estrelas já haviam sucumbido a essa infestação, com exceção de uma. O então “Projeto Última Esperança” é lançado para desenvolver uma nave capaz de levar uma equipe de cientistas até lá com o objetivo de descobrir como impedir que os astrofágicos devorem completamente a energia de nosso sol.
Dentro de muitas indas e vindas, acompanhamos Ryland conforme ele acorda dentro da nave Hail Mary já há anos-luz de distância próximo da estrela imune aos pequenos seres microscópicos: Tau-Ceti, localizada na constelação de Cetus, a baleia.
O grande ponto de virada na trama é quando Ryland, que achava estar sozinho do outro lado do universo depois de descobrir que o restante de sua equipe havia falecido durante a viagem, encontra-se com uma outra nave espacial na mesma região! A bordo dela, há um alienígena também solitário, pois sua equipe também havia perecido durante a viagem de seu planeta natal até lá. Depois de um primeiro contato confuso e cheio de mal-entendidos, os dois formam uma parceria inesperada para resolver o mesmo problema.
Ryland apelida o alienígena de Rocky, porque ele parece ser feito de pedra e ambos acabam conseguindo se comunicar aprendendo aos poucos o idioma um do outro (e com a ajuda de computadores).
ROCKY
Finalmente, posso falar da outra grande estrela do filme. Desenvolvido e dublado pelo titereiro e criador de bonecos James Ortiz (The Woodsman, 2012; The Skin of our Teeth, 2022), Rocky é praticamente a alma do filme. A amizade e a troca cultural que ambos vivenciam nas telas é cheia de altos e baixos, repleta de emoções e é a grande chave do filme para pegar de vez qualquer espectador que ainda não tenha sido capturado pela trama. Os dois complementam as necessidades um do outro para a solução do problema dos astrofágicos, com Ryland entrando com a ciência e Rocky com a engenharia.
Ortiz usou sua experiência premiada na Broadway para criar o personagem de forma mecânica, utilizando-o em várias cenas ao longo do filme. Além de ter servido como referência visual para Gosling e a produção nos sets com uma equipe de manipuladores, apelidada de os Rocketeers. No fim, Miller e Lord convidaram Ortiz para fazer a voz do personagem pois não conseguiam pensar em outra pessoa para o papel. Duvido você sair do cinema sem estar completamente apaixonado por essa pedrinha de cinco pernas que entende tudo literalmente.
No fim, Devoradores de Estrelas é uma ótima experiência. É mais um filme extremamente necessário sobre otimismo diante de tempos sombrios (tipo Superman, no ano passado). É um filme sobre a capacidade criativa da humanidade e é um filme sobre como um trabalho em conjunto com pessoas extremamente diferentes pode trazer resultados para o benefício de todos.
Devoradores de Estrelas vale dez joinhas para baixo. 👎👎👎👎👎👎👎👎👎👎





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