Editor's Rating

entrega muitos esguichos de sangue em alta qualidade, mas perde o fôlego.

6

Eles Vão Te Matar (no original, They Will Kill You) é um filme estranho. É, inquestionavelmente, um espetáculo de entretenimento bruto, uma coreografia de violência não realista que evoca imediatamente o estilo de Quentin Tarantino, mas embalada em uma estética que parece ter saído diretamente de um filme do Wes Anderson. Dirigido pelo russo Kirill Sokolov, o longa marca sua estreia em língua inglesa com uma proposta que se equilibra entre o virtuosismo técnico e o vazio narrativo.

A trama, que remete aos quadrinhos baratos de terror dos anos 70, acompanha Asia Reaves (Zazie Beetz), uma ex-detenta que aceita um emprego doméstico em um luxuoso edifício em Manhattan chamado The Virgil. O objetivo real de Asia, no entanto, é encontrar sua irmã desaparecida. Rapidamente, o que começa como um drama social se transforma em um “balé bárbaro” quando descobrimos que os moradores do prédio formam um culto satânico de bilionários imortais que se regeneram, forçando a protagonista a usar métodos cada vez mais criativos — e sangrentos — para neutralizá-los.

Visualmente, o filme é um deleite para quem aprecia o rigor simétrico e o uso expressivo de cores. Filmado na Cidade do Cabo, a direção de arte de Jeremy Reed transformou os corredores do The Virgil em um labirinto Art Deco, com uma geometria claramente inspirada em O Iluminado, resultando em uma atmosfera claustrofóbica e hipnótica. Essa estética polida contrasta com a brutalidade física de Zazie Beetz, que ancora o filme com uma performance visceral e um olhar capaz de transmitir fúria e dor simultaneamente.

No entanto, o maior calcanhar de Aquiles de Eles Vão Te Matar é o quão derivado ele se sente. Em tempos de “AI slop”, não é de surpreender que discussões em fóruns como o Reddit questionem se o filme foi gerado por uma inteligência artificial, dada a forma como ele “recicla” elementos de obras como Ready or Not (Casamento Sangrento), John Wick e Kill Bill. O filme abraça abertamente a linguagem das mídias sociais: é frenético, foca no espetáculo em detrimento do realismo e se recusa a se levar a sério.

Embora essa fusão entre a agilidade das gerações criadas na internet e a técnica cinematográfica clássica funcione como diversão imediata, a obra falha em estabelecer uma identidade própria. Patricia Arquette, no papel da vilã Lilith Woodhouse, parece se divertir com múltiplos sotaques irlandeses duvidosos, mas sua presença, assim como a de Tom Felton e Heather Graham, serve apenas como acessório para o derramamento de sangue.

Eles Vão Te Matar é um monumento ao excesso. É uma experiência “slick and nasty” que entrega muitos esguichos de sangue em alta qualidade — incluindo sequências memoráveis envolvendo um olho decepado e uma cabeça de porco —, mas que perde o fôlego em um ato final prejudicado por um CGI menos convincente. No fim, sobra a sensação de uma obra tecnicamente impecável, mas que carece de autenticidade em um cenário cinematográfico já saturado de sátiras sociais banhadas a sangue.