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No fim, ficam as boas memórias e os bonequinhos usados no fundo do baú. He-Man continua no coração de qualquer marmanjo, mesmo que a Gen Z só curta Roblox e Fortnite. Só pelo desenho, He-Man vale quatro rebobinadas. Mas pela linha de brinquedos, vale as dez!
Pegue sua espada do poder! Seu machado de batalha! E sua… sunga de pelinho? Porque hoje a Rebobinando volta a uma gloriosa época dos anos 80! Uma época onde as coisas eram mais simples e seus pais não se importavam com os desenhos na TV porque todas as histórias tinham uma lição de moral. Mesmo que essa lição de moral fosse uma propaganda meia hora exibida três vezes ao dia para vender brinquedos. Então chega mais que vamos falar sobre He-man & os Mestres do Universo!
Na verdade, tenho que dar o crédito dessa coluna a uma série que ainda continua disponível na Netflix chamada Brinquedos Que Marcam Época. É uma série documental de 2019 em que as principais mentes por trás dos mais icônicos brinquedos do passado discutem sua ascenção (e algumas vezes queda) de suas criações milionárias. Todos os episódios são muito bacanas e cobrem as histórias de origem dos brinquedos de Star Wars, Comandos em Ação, Barbie, etc. Obviamente, o episódio mais importante para nós hoje e o que tem a ver com o assunto da coluna é sobre o guerreiro bárbaro “Ele-homem”!
(clica no link da música lá no fim da página, vai?)
Acredito que He-man esteja no top 3 da minha classificação pessoal de desenhos e brinquedos clássicos dos quais eu consumi tudo o que era possível, junto ali com Thuundercats e as Tartarugas Ninja. O que não e nenhum mérito em si, claro. Já que, assim como eu, outros trocentos de milhares de crianças passaram pela mesma fase. No entanto, eu sei… EU SEI que vai ter algum marmanjo por aí que vai levantar o dedo e dizer: “ain, na verdade eu curtia Transformers!” E tudo bem, tá?
Mas sempre vai ter algum marmanjo (S.E.M.P.R.E) que vai dizer algo do tipo “ain, eu curtia Transformers”. E, beleza. As pessoas podem estar erradas algumas vezes, porque He-Man era bem mais legal que Transformers!
PELOS PODERES DE GRAYSKULL!
O ano era 1980. E a monstra do mercado de brinquedos, Mattel, ainda estava se mordendo por não ter dado a devida atenção ao fenômeno de merchandising que foi Star Wars. O segundo filme da franquia, O Império Contra-Ataca, tinha acabado de ser lançado nos cinemas e George Lucas estava enchendo os bolsos de dinheiro com seus bonequinhos de 8 cm. Não querendo ficar atrás, os cabeças da área de criação e desenvolvimento da empresa estavam… bom, quebrando a cabeça para tentar adivinhar o que as crianças queriam. Eu, particularmente, acho a solução deles muito interessante. É algo que me lembra das histórias que o Stan Lee contava sobre a criação do Homem-Aranha. Ele dizia que depois de pensar no conceito do personagem, ele foi testando e explorando qual nome soaria mais legal, mais impactante, que chamasse mais a atenção: e que “spider-man” foi um nome que soava muito bem.
Ao assistir ao documentário e acompanhar a história por trás da criação dos brinquedos dos Mestres do Universo, dá para notar que o ambiente de criação da Mattel tinha muito disso. Pois tudo se resume à palavra power. Os caras que trabalhavam criando os brinquedos da empresa entenderam que as crianças queriam “ter o poder” de mandar em suas próprias brincadeiras.E daí surgiu a ideia da, er, “lavagem cerebral” com o desenho animado e o herói em questão clamando “I HAVE THE POWER”, que acabou sendo traduzido por aqui como “eu tenho a força”.
Inclusive, o nome “He-Man” surgiu da mesma maneira! Aqui no Brasil, a gente acha que é um nome super esquisito porque traduz ao pé-da-letra, claro. Afinal, o que significa “ele homem”? Mas se você catar em qualquer dicionário, ou mesmo perguntar na internet por aí, olha só:
Isso mesmo. A palavra “he-man” quer dizer “homem altamente masculino, forte e viril”. Ou seja, em terras brazucas, a gente poderia ter facilmente traduzido o nome dele para algo como “Homão da Porra & os Mestres do Universo”. Sem falar que a escala dos bonecos da Mattel (cerca de 14 cm) era muito maior e não tinham comparação com os bonequinhos mirrados de Star Wars da Kenner (que tinham uns 8 cm). Ou seja, ele também já tinha nascido dessa nessecidade masculina de comparar tamanhos, quase como se estivesse tentando, er, “compensar” alguma coisa.
EU TENHO A FORÇA!
O surgimento da linha de brinquedos se deu por uma série de motivos. Muita gente acredita que a linha era um reaproveitamento dos bonecos criados para a série de filmes do Conan (1982), mas na verdade ela surgiu como uma ideia original que a Mattel tentou empurrar para a Universal Pictures, sem sucesso. Como o filme tinha um aspecto mais violento, ainda mais com o nome “bárbaro” no título, muitos executivos se sentiram inseguros em direcionar o filme para crianças.
O fato é que era preciso fazer frente ao sucesso estrondoso de Star Wars e o “re-re-aproveitamento” dessa linha caiu nas mãos dos designers Roger Sweet e Mark Taylor, entre vários outros. Hoje em dia, todos eles disputam o status de “criador oficial” do conceito do personagem com Sweet dizendo que foi o primeiro a ter e apresentar a ideia à Mattel, mas com várias outras fontes dizendo que ele apenas se baseou em desenhos antigos de Taylor de um outro personagem chamado “Torak, o herói da pré-história”.
O fato é que da primeira vez que o projeto da linha de bonecos foi apresentado, várias mãos se uniram para tentar torná-lo realidade. Roger Sweet pegou alguns bonecos de outra linha de brinquedos chamada “Big Jim” e deu uma nova roupagem tentando apresentá-los como o “Trio He-man”: com um guerreiro bárbaro, um soldado com cabeça de tanque e uma espécie de astronauta com um capacete incrivelmente parecido com o do Boba Fett. Com isso, a figura do guerreiro bárbaro foi a escolhida por conta dos músculos à mostra e demonstração de força e todo mundo da empresa se pôs a trabalhar.
Mark Taylor ficou responsável pela maioria dos designs que conhecemos hoje e a linha acabou sendo inicialmente batizada de “Senhores do Poder”, mas devido ao fato deste nome soar religioso demais, acabaram mudando para Mestres do Universo. No fim das contas, a grande sacada da criação deste universo foi torná-lo uma mistura de guerreiros de “capa e espada”, espaço sideral, magia e tecnologia. Isso dava espaço e criatividade para os designers pensarem nas coisas mais absurdas, reaproveitar qualquer coisa que servisse de outras linhas de brinquedos e utilizar até mesmo a pia da cozinha na hora de bolar novos heróis e vilões!
Numa das histórias mais memoráveis dessa elaboração foi quando Roger Sweet resolveu incorporar uma das figuras de tigre da linha do Big Jim aos Mestres do Universo. Taylor reclamou dizendo que os bonecos não estavam na mesma escala e que o tigre tinha o tamanho equivalente ao de um cavalo para os bonecos. Sweet apenas respondeu: “Ora, se o tigre está do tamanho de um cavalo, põe uma sela nele!”. E assim surgiu o Gato Guerreiro!
Com isso, foi lançado em 1983 a primeira onda de bonecos dos Mestres do Universo, que contava com: o próprio He-man e seu arqui inimigo, Esqueleto; além de Mentor, Teela, Gato Guerreiro, Zodac, Stratos, Aquático e Homem-Fera.
NO EPISÓDIO DE HOJE, AMIGUINHOS…
O lançamento dos bonecos, ou se você preferir, “figuras de ação”, foi acompanhado de diversas formas de estabelecer os personagens junto ao público. Como Star Wars tinha uma série inteira de filmes em que as crianças podiam identificar quem era quem, a coleção de He-man não tinha a mesma vantagem. Com isso, colocaram mini gibis nas embalagens de cada boneco, que continham histórias apresentando cada personagem. Além disso, em 1983 foi ao ar a famosa série animada que tanto amamos (e que no fim, foi a maior responsável pelo grande sucesso da linha de brinquedos).
E para a época, convenhamos, o desenho era MARAVILHOSO! Através do uso da técnica de rotoscopagem, os movimentos dos personagens eram quase reais e pareciam muito bem feitos. Até mesmo as lições de moral, que foram incluídas só para os pais não reclamarem que o desenho era “violento demais”, deixaram uma marca em muitos marmanjos espalhados por aí. Para todos os efeitos, foi um desenho que definitivamente marcou época. Seja como pura estratégia de marketing ou como avanço no uso de temas de histórias para crianças. Afinal de contas, o He-man era um bárbaro que, apesar de raramente usar sua espada em lutas, foi um dos primeiros heróis a lutar de fato lutar fisicamente contra seus inimigos na telinha. A produção também incluiu temas como drogas, bullying, dar atenção aos pais, etc. He-man andou para que Bluey pudesse correr!
Uma pena que nada disso se sustenta ao teste do tempo. A última vez que eu tentei assistir, não consegui terminar um episódio sequer. Em matéria de contar uma história, o remake de 2002 e os reboots de 2021 e 2024 produzidos pelo Kevin Smith fazem um trabalho muito melhor e mantém o espírito original do personagem. Fica a dúvida se o novo filme de 2026 vai entrar nesse rol de produções ou se vai cair no esquecimento como o outro reboot da série de 1990 e o filme de 1987.
PONTOS FORTES
- O marketing e merchandising, né? Nada parecido havia sido feito até a época. E isso abriu precedentes para inúmeras outras séries que usavam desenhos animados como uma “propaganda de meia hora”, tipo as Tartarugas Ninja, Thundercats e Comandos em Ação.
- A história. Se você se preocupar em procurar, o plot dos Mestres do Universo tem uma riqueza de detalhes e um backstory absurdos. Coisa que só fãzão mesmo conhece, mas que vale a pena conhecer.
- A própria linha de brinquedos. Como os próprios criadores disseram, só faltou eles jogarem a pia da cozinha nessa história. Como a ambientação de fantasia sci-fi de capa-e-espada pode englobar muitos elementos, tinha-se a liberdade de se criar absolutamente qualquer coisa! E se você souber inglês, os nomes dos personagens são de uma qualidade trocadilhesca maravilhosa: como Evil-Lynn, Man-e-Faces, Two-Bad, Sy-Klone, etc. etc.
PONTOS FRACOS
- O desenho animado. Como eu disse antes, se removermos o fator nostalgia, o desenho não é lá essas coisas. Não se sustenta ao teste do tempo, nem em relação ao roteiro, nem em animação. Uma pena.
- As continuações. O desenho original durou uns cinco anos, gerando até um spin-off: She-Ra a princesa do Poder. Sem contar o filme horroroso de 1987. Desde então a Mattel vem tentando sucessivamente, a cada década, relançar os Mestres do Universo para um público novo. Tentou em 1990 com o He-Man de rabo de cavalo. Tentou novamente em 2002 com um desenho que era até bacana, mas que também acabou cancelado. Em 2021, Kevin Smith comandou um reboot da série original que não foi muito bem visto pelos fãs mais ardorosos porque ele resolveu dar mais destaque a personagens coadjuvantes… Mas eu lembro de ter gostado bastante.
- O marketing e o merchandising. Como dito antes, toda essa estratégia foi pioneira em como fazer desenhos e vender brinquedos e isso acaba sendo muito ruim. Tanto pro mercado de brinquedos como o de desenhos. Até pouco tempo atrás, alguns desenhos ótimos acabavam sendo cancelados porque não vendiam brinquedos o suficiente, mesmo que houvesse uma infinidade de fãs da história.
No fim, ficam as boas memórias e os bonequinhos usados no fundo do baú. Mas He-Man continua no coração de qualquer marmanjo (ou marmanja, vamos combinar) até hoje, mesmo que a maioria das crianças só curtam Roblox, Minecraft e Fortnite… Meodeos, eu virei mesmo um velho reclamão! Bom, pela nostalgia e pelo desenho, He-man vale apenas quatro rebobinadas. Mas pela linha de brinquedos, vale as 10 rebobinadas!







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