Editor's Rating

O filme não é o melhor de todos os Nolan, mas, por enquanto, merece lugar entre os três melhores.

8

O filme abre com um rapper americano — Travis Scott — no papel de um bardo da Idade do Bronze, cantando a vitória dos gregos em Troia. Não existe melhor começo, que diga a que veio e quem é, para um filme cujo caminho até a estreia foi enevoado por tanto discurso de “guerra cultural”. Mas não, o filme não abre com um rap. Abre com um cântico perfeitamente cabível na antiguidade, de tempo marcado pelo cajado do bardo. A escolha do ator é simbólica, e começar assim é uma auto-apresentação. Nolan disse à Time que escalou Scott para “acenar à ideia de que essa história foi transmitida como poesia oral, o que é análogo ao rap”. Existe um certo tipo de “classicista” que se revira ao ler isso, mas um olhar objetivo é capaz de reconhecer as razões da afirmação. É possível também reconhecer o filme como uma continuação desta tradição. Um filme não é um texto: ele é falado (pelo menos desde que abandonamos as cartelas de fala ao sincronizar o som nesta mídia), e a música esteve com o cinema desde sempre — quando os Lumière projetaram o trem chegando à estação, alguém tocava piano ao lado da tela.

Estamos diante da recontagem de uma história que sempre teve alguém contando e recontando, faz três mil anos. E quem abre o filme contando deixa claro quem conta agora: o Ocidente contemporâneo olhando para si mesmo a partir de uma das histórias mais antigas daquilo que considera a própria raiz. O hubris grego é o hubris do império americano. A ameaça da queda da Idade do Bronze é o medo de que já passamos do ápice da civilização ocidental — e de que agora só reste ao império assistir à própria ruína. Até o discurso em volta da estreia parece simbólico nisso. Quem reclama da multiculturalidade do elenco está apenas agarrado a uma fantasia de antiguidade que nunca existiu — o eterno desejo dos bárbaros que herdaram os restos do império romano de estarem representados ao centro; aquilo que faz europeus pintarem um nazareno branco e loiro. Nolan entende que é apenas mais um bardo cantando uma das canções mais antigas, e vai cantá-la do jeito dele, refletindo o mundo que o cerca, com foco no que importa para nós agora. Porque é assim que cada bardo sempre fez.

Nolan tenta entregar um Odisseu (Matt Damon) que faça sentido para a sociedade que o cerca. Traz para a narrativa personagens que não estão na Odisseia mas existem em outras obras sobre a Guerra de Troia — o roteiro incorpora elementos da Eneida de Virgílio e do Agamêmnon de Ésquilo — e nem menciona alguns dos nomes mais famosos. Elliot Page não tem muito tempo de tela comparado a outros atores: interpreta Sinon, um soldado que parte para Troia ainda menino, amadurece na guerra e nunca volta. Um sacrifício não voluntário que marca Odisseu por toda a narrativa. Sinon nem existe na Odisseia — vem de outros textos do ciclo troiano — mas agora, graças a esta versão, talvez fique marcado nela para sempre. Page e Zendaya representam marcas importantes de quem este Odisseu é, e foram focos do discurso tóxico de guerra cultural que o filme recebeu, assim como Lupita Nyong’o, que encarna Helena. Estas escolhas de Nolan, narrativas e de elenco, foram absolutamente bem-sucedidas.

Mas nem todas as suas escolhas brilham tanto. Aqui, um pacto com o leitor: spoilers de um poema de três mil anos circulam livres neste texto; mas a Odisseia de Nolan muda o final — para algo que encaixa melhor no arco narrativo que construiu para o seu Odisseu. Isto não é uma defesa do final clássico, Odisseu de volta ao trono e muitos anos de paz como garantia divina dada por Atena (este spoiler, Homero autoriza). O novo desfecho quebra o final feliz de Homero sem quebrar o vício hollywoodiano: ainda é um final feliz, só que de outro sabor. E funciona — todos passamos o filme torcendo por Telêmaco (Tom Holland) contra Antínoo (Robert Pattinson), e Nolan preparou bem a história para essa torcida. Mas a luta final entre Odisseu e os pretendentes de sua suposta viúva — essa está em Homero, ninguém pode reclamar de spoiler — acaba nos colocando numa antítese do que deveria ser a mensagem do filme. Por mais que os crimes de Odisseu sejam deixados claros, ainda existe um lugar e uma utilidade para ele: ele segue sendo O Bom Soldado, que mata pelo motivo certo, porque no fim é isso que ele faz para salvar a esposa e o filho. A ideia de que ele é, ao mesmo tempo, o problema e a solução não é claramente trabalhada. Nolan martela algumas mensagens para garantir que até o mais desatento membro da audiência entenda — e ignora a maior contradição narrativa da própria história. Quando Odisseu e Circe (Samantha Morton) se resolvem sem mortes e ele recebe de volta seus homens, a mensagem ali é clara. Quando Antínoo finalmente morre, só temos o gozo da punição ao pior monstro da tela e nenhuma reflexão — algo que Nolan já fez melhor quando fazia blockbusters de super-heróis.