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Pode-se dizer que Jaspion foi o grande precursor da grande onda de cultura japonesa que invadiu o Brasil nos anos 1990. Com a chegada das produções japonesas, o público médio conheceu outras formas de storytelling, valores e estilo de ação que chamaram muita atenção.

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Rebobinandos

Vamos, garoto! Mesmo diante de seu momento mais difícil, vamos, garoto! Dê um sorriso e sua coragem retornará no mesmo instante! 一 É com essas palavras de incentivo que uma das músicas de abertura mais cantadas (e menos compreendidas) dos anos 1980 dava início à primeira febre nipônica que atingiu o Brasil. Estou falando de O Fantástico Jaspion, é claro. Então sobe na sua motinho voadora e vem rebobinar comigo!

Exibido originalmente no Japão entre 1985 e 1986, Kyojuu Tokusou Juspion (algo como “O Investigador de Criaturas Gigantes Juspion”), foi a quarta série do gênero metal hero lançada por lá. As primeiras, conhecidas pelos fãs do gênero, também chegaram a ser exibidas no Brasil em momentos diferentes: Space Cop Gavan (1982), Guardião do Espaço Sharivan (1983) e Policial Espacial Shaider (1984). Com os três sendo conhecidos oficialmente como “xerifes espaciais”, Jaspion surgiu como o metal hero que iniciaria uma nova era nessa programação. Justamente por não ser mais uma novidade, ele não obteve em sua terra natal o mesmo nível de popularidade que teve por aqui, mas ainda assim, não fez feio.

Algo que não é muito compreendido entre as diversas séries de tokusatsu (literalmente “filmes com efeitos especiais”) produzidas no Japão, é que todas elas são mais ou menos “temporadas” e meio que coexistem entre si, dentro de seu universo particular. Por mais que cada herói e equipe tenham suas histórias contadas de forma fechada, não é estranho que personagens de uma obra apareçam em outra, ou até mesmo que todos se reúnam uma vez para enfrentar uma grande ameaça. No caso de Jaspion e dos “heróis metálicos”, todos tinham uma temática mais “policial”. O gênero inteiro, de maneira geral, durou de 1982, com o lançamento de Gavan, até 1998, com a equipe inédita no Brasil, Robotack.

Assim conhecemos diversos outros heróis dessa franquia, como Spielvan (1986), Metalder (1987), Jiraiya (1988), Jiban (1989), Esquadrão Winspector (1990) e Solbrain (1991). Todos produzidos pela Toei Company, assim como as séries do gênero Super Sentai (os super-esquadrões) e Kamen Rider. Ou seja, Cybercops, de 1988, não conta. Era só uma “cópia barata” produzida pela Toho Company, a responsável pelos filmes e séries do “monstroverso”, do gigante Godzilla.

Jiban, Jaspion e Black Kamen Rider, heróis de uma época.

SUBINDO O EVEREST

Só que não podemos falar sobre Jaspion e a febre dos tokusatsus no Brasil sem mencionar o fenômeno das locadoras de vídeo do bairro da Liberdade, em São Paulo. Diante do advento das fitas VHS no mercado e da possibilidade de gravar e regravar programas direto da TV, aos poucos foram surgindo algumas “locadoras” no país que tinham acesso a programas e filmes que dificilmente seriam encontrados pelo público médio. Locadoras como a Golden Fox forneciam fitas clandestinas com animes e seriados que vinham diretamente do Japão, às vezes com legenda, às vezes dubladas, às vezes sem nada, que começavam a fazer um certo sucesso entre seus clientes. Diante de problemas com a Polícia Federal e apreensões, alguns donos dessas locadoras perceberam a necessidade de legalizar seus negócios para poder trazer essas programações de sucesso para o Brasil. Assim nasceram as principais distribuidoras dessa época: a Everest Vídeo do Brasil e a Brazil Home Video.

Desde 1986, Jaspion já circulava pelas mãos dos clientes frequentadores da Liberdade, mas foi só em 1988, mediante um licenciamento para a extinta Rede Manchete, que o herói foi parar na telinha de cada criança no Brasil. E que chegada! Junto com o Esquadrão Relâmpago Changeman, Jaspion foi um absoluto sucesso de audiência, chegando a registrar os maiores picos de ibope da emissora. Ao longo da década de 1990, o seriado foi reprisado até a exaustão em conjunto com todas as outras séries já mencionadas antes.

Os heróis tiveram gibis lançados pela editora Ebal, Bloch e Abril Jovem. Foram tema de música infantil do Trem da Alegria, pelas mãos dos compositores Michael Sullivan e Paulo Massadas. Viraram álbum de figurinhas, brinquedos duvidosos e mais uma pá de coisas. E apesar de Jaspion e cia. não serem exatamente os primeiros heróis japoneses a chegarem no Brasil (esse crédito fica para National Kid, Ultraman e Spectreman), eles representaram uma grande revolução de merchandising e sucesso de mercado numa época em que a atenção das crianças era basicamente sinônimo de fortunas.

Tanto que, no Brasil pelo menos, o nome “Jaspion” seja talvez mais conhecido do público médio como um exemplo de “herói japonês” do que as figurinhas fáceis dos animes, como Goku, Naruto ou Luffy.

Haja trocado de pão para tudo isso.

 

O INVESTIGADOR DE MEGA CRIATURAS

Há milhares de anos-luz da Terra, Edin, o último dos profetas galácticos, encontra um menino órfão em seu planeta, que havia caído com uma nave espacial. Acreditando que a criança poderia ser o “campeão da justiça” profetizado em sua Bíblia Galáctica, ele o batiza de “Juspion” (no original em japonês). O nome é um amálgama de “justice” e “champion” em inglês. 

Por que um velho ancião que fala japonês em outro planeta daria um nome em inglês para um menino que encontrou na rua? Não sabemos.

De qualquer maneira, ele cria o garoto com a missão de enfrentar e derrotar o temível Satan Goss, um demônio espacial que havia nascido a partir da união de todas as energias negativas do universo. Como a personificação do mal, o vilão vaga pelo cosmo criando monstros e enfurecendo criaturas a fim de aumentar o seu domínio maligno.

Com 45 episódios, a série passa alguns de seus primeiros capítulos pulando de planeta em planeta, até que Jaspion fixa residência na Terra, um lugar conhecido em todo universo por ser o “berço dos monstros”. O que diz muita coisa sobre nosso pequeno ponto pálido azul, né? Ao longo da trama, Jaspion enfrenta diversos vilões, liderados pelo filho de Satan Goss, o maquiavélico MacGaren (que viria do inglês, “mad gallant”, que na pronúncia japonesa vira “maddo garan”). Ao seu lado, Jaspion conta com sua fiel sidekick, a andróide Anri, a alienígena Mya, o herói Boomerman e o cientista Professor Nambara.

Não, “Boomerman” não é o inimigo natural do “Millennialman”.

Além disso, Jaspion possuía uma série de equipamentos e veículos que, além de aumentarem ainda mais a possibilidade de merchandising, o auxiliavam no combate às forças do mal: sua armadura Metal Tech de materialização instantânea, feita do metal mais resistente do universo; Turbo Magnum, sua pistola laser com funções variadas (na base do Deus Ex Machina); e a Spadium Laser, o… er… “sabre de luz” com o nome mais genérico possível, o que é curioso porque o nome original dela era “plasma blazer sword” que é INFINITAMENTE mais legal.

Na área dos veículos, ele possuía o seu Mazda RX-7 1985, que não tinha um nome, mas era o carro que eu achava mais maneiro no mundo aos sete anos de idade! A Allan Moto Space, uma moto que também podia voar; o Gaibin Tank, um tanque com duas brocas perfuratrizes para incursões subterrâneas; Gaibin Jet, um jato que poderia se desacoplar do tanque; e claro, sua nave-mãe, Daileon, que poderia se transformar no robô gigante, o Gigante Guerreiro Daileon (“Chou Wakusei Sentou Kyodai Daireon”, no original, que seria traduzido como “Super Gigante de Combate Interplanetário Daileon”).

Por fim, o herói e seus aliados descobrem que a única forma de derrotar Satan Goss seria encontrar o lendário Pássaro Dourado, um animal lendário conhecido como o guardião do universo. Para tanto, eles precisam encontrar cinco crianças que foram irradiadas pela luz do pássaro a fim de restaurá-lo para derrotar o vilão.

“Daruto Veideru” e o “Maluco Beleza”.

A GRANDE ONDA JAPONESA NO BRASIL

Pode-se dizer que os tokusatsus da Manchete, e o Jaspion, mais especificamente, foram os precursores da grande onda de cultura japonesa que invadiu o Brasil no início da década de 1990. A infância da geração anos 1980 cresceu sendo alimentada pelos enlatados norte-americanos na forma de seriados, filmes e desenhos animados que formaram muita gente e também foram muito influentes. No entanto, com a chegada das produções japonesas, esse mesmo público entrou em contato com outras formas de storytelling, valores e estilo de ação que chamaram muita atenção.

Diferentemente dos embates em preto-e-branco que os estadunidenses propagavam, não era estranho que os seriados japoneses mostrassem vilões trágicos, em “tons de cinza” em que eles tinham suas próprias motivações e questões de honra que precisavam ser resolvidas. Além disso, a forma oriental de contar histórias é muito mais melodramática, o que cria um certo elo com o seu público (em especial a gente aqui na América do Sul, que ama uma novela, no bom e no mal sentido). Quem não se lembra do drama do “monstro bom” Namaguederaz? Ou da épica Morte de MacGaren e sua posterior ressurreição pelas mãos da bruxa galáctica Kilza? Ou quando Jaspion descobre que Zampa foi o responsável pela morte de seus pais?

Os efeitos especiais e as cenas de ação, apesar de parecerem mega datadas hoje em dia, também eram uma grande novidade na televisão. Os heróis caíam na porrada com uma coreografia elaborada, ângulos dinâmicos e planos sequência de tirar o fôlego. Algo também inédito na TV brasileira (a não ser que você estivesse acostumado com os filmes de kung-fu dos anos 1970).

E a popularidade de Jaspion também se deve ao ator Hikaru Kurosaki, que mesclava ação e humor, com uma alta dose de carisma. Jaspion se mostrava como um exímio combatente, corajoso e de bom coração, mas ao mesmo tempo era meio galhofa, fazia altas caretas e fugia da briga sempre que necessário. Era uma vibe todo meio JAckue Chan e talvez por esse jeito meio de malandro ele tenha feito tanto sucesso no Brasil.

E essa estética? Esse cabelo maravilhos?

Pontos Altos

  • A trama. Bem ou mal, a história era envolvente. Como as histórias de produções japonesas costumavam ter início, meio e fim, Jaspion era uma série que tinha um objetivo claro e tudo se encaminha para um final, eventualmente.
  • Hikaru Kurosaki. Falecido recentemente, em julho de 2026, o ator havia abandonado a vida de ator para se tornar instrutor de mergulho em Okinawa. Contudo, sua performance como o herói foi marcante, senão para o público japonês (que o encarou apenas como “mais um” metal hero), pelo menos para o Brasil inteiro. Que o digam os 53 brasileiros que carregam o nome do herói em seus RGs até hoje.
  • Novidade. Era tudo muito novo na TV brasileira. E isso, de certa forma, abriu caminho para ainda mais produções do Japão chegarem ao Brasil. Depois da onda de Jaspion, tivemos Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball Z, Naruto, One Piece, entre tantos outros animes e seriados.

Pontos Meh

  • Disponibilidade. Hoje em dia é um bocado difícil encontrar o seriado em boa qualidade para assistir, com a dublagem original. Por questões de direitos autorais, de dublagem e tantos outros empecilhos, alguns sistemas de streaming até possuem a série para exibição, mas apenas no idioma original e com legendas. O que tira um pouco da magia de reassistir, francamente.
  • Efeitos Datados. Se você é desses que implica com o visual, acaba sendo um pouco negativo. Ainda mais se você não cresceu acompanhando a evolução técnica de filmes e seriados de uma maneira geral. Eu amo. Nostalgia pura.

Os novos Jaspions parecem o Daft Punk,

Jaspion foi um marco de uma época, em especial para crianças que curtiam super-heróis e não tinham muito acesso a seriados em live action que reproduzisse fielmente coisas que víamos nos quadrinhos ou nos desenhos animados. Poucos anos depois, os tokusatsus foram “americanizados” para o público médio dos Estados Unidos e ganharam o mundo inteiro no formato dos Power Rangers, o que, para mim, foi uma espécie de cópia barata que tirou tudo aquilo que tornava as produções japonesas verdadeiramente interessantes. Mas até mesmo eles perderam um pouco da força conforme seu público cresceu, dando lugar aos heróis em couro e colantes da nova era do cinema de ação, com o surgimento do MCU e dos filmes da DC.

Aparentemente, no início de 2026 uma nova série de Metal Hero foi lançada no Japão com o nome de Super Space Sheriff Gavan Infinity, com um filme programado para o final de julho do mesmo ano: Super Space Sheriff Gavan Infinity: The Day the Sun Cried. E só pelo nome eu já admiro toda a dramaticidade japonesa. E você, sente saudades do Jaspion? Vai rever a série toda no youtube? Conta aqui para mim nos comentários!