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Apesar de algumas pequenas barrigas, o filme tem um tema bem estabelecido e tem um arco narrativo com início, meio e fim. Um Novo Dia acaba sendo um sopro de ar fresco à fórmula já batida do MCU. É o filme com mais pinta de quadrinhos da Marvel, bastante divertido.
Será que mesmo depois de mais de vinte anos de filmes do Homem-Aranha, contando com dois reboots, não sei quantos spin-offs, uma franquia de Aranhaverso, Aranha Noir, Aranha com Bacon e Fritas, Aranha com Periquito, Papagaio e Pia da Cozinha… Enfim, será mesmo que a Marvel ainda é capaz de inovar com o personagem em seu “novo dia”? Senta que lá vem a resenha.
Homem-Aranha: Um Novo Dia, estreou mundialmente e, por incrível que pareça (ou não), vem lotando os cinemas como se as pessoas nunca tivessem visto nada de Homem-Aranha nos últimos anos. Claro, com ele sendo talvez o personagem mais popular da Marvel desde os anos 1960, não é difícil de imaginar que o público corra atrás do seu filme fazendo parecer que a tal “fadiga de super-heróis” seja apenas uma memória ruim dos anos pós-covid. Mas apesar dos pontos altos, do fanservice e do roteiro amarradinho, o filme está longe de ser um “absolute cinema”. Mas é bem divertido.
Assim como seu personagem, Tom Holland (O Impossível, Uncharted) já não é mais um garoto inocente em meio aos peixes graúdos da indústria cinematográfica. Do auge dos seus 30 anos de idade, este senhor casado agora também tem créditos de produtor e é capaz de tomar decisões (muito sábias, eu diria) para o desenvolvimento da história. Em diversas entrevistas, Holland comentou que depois de passar por diretores do naipe de Christopher Nolan (A Odisséia, Interestelar), uma das coisas que ele mais queria para Um Novo Dia era um roteiro completo e fechado antes das filmagens começarem. O que pode parecer óbvio, mas que não é o modus operandi habitual das produções do MCU, como já bem sabemos.
E isso se faz notar. Apesar de algumas pequenas barrigas, o filme tem um tema bem estabelecido e um arco narrativo com início, meio e fim. Claro, ainda fica a sensação de interferência do produtor Kevin Feige, que quer apresentar certos personagens só porque agora é possível. Mas como o filme na verdade é mais da Sony do que da Marvel e quem manda ali são outras pessoas, Um Novo Dia acaba sendo um sopro de ar fresco à fórmula já batida do MCU.
E, na minha humilde opinião, é o filme com mais pinta de quadrinhos da Marvel: com encontros aleatórios entre os heróis Nova Iorquinos, crossovers e parcerias que eu só lembro de ter visto nos primeiros filmes dos Vingadores. Nesse ponto de divertimento, ouso colocá-lo em segundo lugar no meu ranking pessoal de filmes do Aranha.
A SAGA DO PERSONAGEM MISTERIOSO
Gente, o filme é bom, tá? Pode ver. Só que, a partir daqui, entraremos em terreno de SPOILERS! E se você é dessas pessoas que se importam o suficiente com os segredos de um filme de blockbuster de verão, mas que não teve condições de vê-lo no final de semana de estreia, pode dar uma volta por aí e desligar todas as suas redes sociais. Ou se esconder embaixo de uma pedra, sei lá. Chega aqui depois de assistir o filme e a gente conversa.
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Ainda aqui? Perfeito. Não era verdadeiramente segredo para ninguém que a tal “personagem misteriosa” de Sadie Sink (Stranger Things) era ninguém menos do que Jean Grey. Ooooohhhh! A jovem atriz ruiva escolhida para interpretar uma vilã ruiva com poderes mentais era na verdade a personagem clássica da Marvel conhecida por ser uma jovem ruiva com poderes mentais. Mas ok, o arco da Jean é até condizente com o tema de “perda e solidão” que permeia a vida de Peter Parker desde o primeiro minuto de filme.
Após os eventos de Sem Volta Para Casa, Peter fez com que o mundo esquecesse quem era Peter Parker, incluindo as pessoas mais próximas de sua vida, como seu grande amor MJ e seu melhor amigo Ned Leeds. Com isso, ficamos sabendo que ele seguiu sua vida como um herói solitário durante os seus anos de faculdade. A essa altura, todos eles já estão buscando empregos, com seus vinte-e-poucos anos, enquanto Peter segue isolado enfrentando vilões como o Lápide, Bumerangue, o Canguru e Tarântula em algumas das cenas de fanservice mais bacanas. Suas únicas companhias são as relações à distância que ele mantém com a capitã da polícia, Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas, The Bear, IF: Amigos Imaginários) e sua assistente virtual E.V. (Naomi Watts, O Impossível, O Chamado).
Quando a vilã principal do filme surge, vemos o Aranha interagir também com o Justiceiro (Jon Bernthal, Justiceiro: A Última Morte, Baby Driver), mostrando que não é exatamente a primeira vez que os dois personagens se encontram. O que é uma pena, porque eu adoraria saber o que aconteceu realmente em Staten Island. Enfim, após um breve embate, Peter percebe que seu inimigo em potencial trabalha através de controle da mente e, com a pulga atrás da orelha, vai atrás de uma amiga especialista em questões deste tipo: a nova Viúva Negra, Yelena Belova (Florence Pugh, Midsommar, Thunderbolts*Novos Vingadores).
E aqui entra talvez o ponto mais interessante do filme. Ao passo em que Peter chega à vida adulta de fato (no filme ele está com cerca de 21), ele começa a passar por uma espécie de metamorfose que vai alterando seus poderes de forma considerável e abrupta. Juntando-se a isso o fato dele se manter em constante isolamento, os efeitos parecem ser quase insuportáveis. Então ele toma uma decisão de ignorar essa nova transformação e vai atrás de um outro especialista, Bruce Banner, o Hulk (Mark Ruffalo, Vingadores, Pobres Criaturas). Inspirando-se no inibidor que Banner usa para conter sua transformação, Peter desenvolve um para conter seus próprios poderes e um inibidor extra, de caráter universal, capaz de inibir os poderes de qualquer pessoa que possuir, er… mutações. Para ser usado em Jean Grey.
Só que apesar de diversos atos vilanescos bem sérios e cruéis ao longo do filme, descobrimos no fim que Jean na verdade é a principal vítima da história. O Aranha trabalha o tempo inteiro ao lado da polícia e também da agência governamental Controle de Danos, que surgiu para substituir a extinta S.H.I.E.L.D. Jean queria apenas encontrar sua irmã, que havia desaparecido após ser raptada pela agência. Quando ela coloca em risco boa parte da cidade com um novo alcance dos seus poderes telepáticos e telecinéticos, Peter divide com ela suas próprias perdas e a convence a recomeçar sua vida.
PERDAS, ISOLAMENTO E RECOMEÇO
Tom Holland argumentou que o “Novo Dia” de Peter Parker começa na verdade depois do último frame do filme, o que faz total sentido. Tudo muda quando ele finalmente entende que precisa restabelecer o contato com seus amigos e com outras pessoas e se aceitar, aceitar suas mudanças, suas transformações e seguir em frente, apesar de todos os traumas que passou.
E é interessante a escolha dos personagens com quem ele interage ao longo da história. Cada um deles passou por suas próprias perdas e traumas; e cada um deles encontrou um caminho na vida para seguir em frente. Frank Castle é o que Peter poderia se transformar, caso ele continuasse no mesmo caminho de se afastar de sua humanidade e aceitar seus dons como um fardo. E Yelena Belova é o que Peter poderia se tornar, caso ele se abrisse para as pessoas à sua volta e encontrasse uma nova família da qual fazer parte. No fim, tanto Jean Grey quanto Peter Parker estão sofrendo por conta da perda de suas pessoas mais próximas: para Jean, foi sua irmã, enquanto para Peter, sua Tia May.
E a cena mais fofinha é quando a memória de May Parker surge para dar seus conselhos tanto ao herói quanto à “vilã” da história. E no fim, após mais um breve momento de drama e ação, vemos que cada um dos personagens envolvidos saiu um pouco melhor dessa experiência. E mais uma bela demonstração de como o público ama o Homem-Aranha, estabelecendo mais uma ligação com os outros inúmeros filmes do herói, desde a era de Sam Raimi, passando pela de Marc Webb, de James Watts, até a de Destin Daniel Cretton.
NOT SO ABSOLUTE CINEMA
Só para não dizer que não falei das flores. Eu, particularmente, achei meio “meh” que Jean Grey tenha sido oficialmente apresentada no MCU em um filme do Aranha. Fiquei com a impressão de que foi uma leve forçação de barra do Kevin Feige só porque agora ele finalmente pode usar os X-men e todo mundo está esperando um mutante aparecendo em qualquer filme da Marvel. O Homem-Aranha possui uma galeria de vilões enorme e uma pá deles possui poderes telepáticos. Alguns obviamente são meio qualquer coisa e não teriam um impacto tão gratificante para os catadores-de-piolho dos filmes, mas outros tantos seriam escolhas até mais interessantes que poderiam abrir opções para futuros filmes.
Como o arco O Outro foi uma óbvia inspiração para o filme, eu acharia interessante se o filme trouxesse um vilão como o Morlun, ou a Vespa Caçadora, que caberiam perfeitamente nessa trama. Ainda havia a opção de trazer a Rainha-Aranha para essa história, o que daria em uma possível adaptação de Ilha das Aranhas (meu sonho). No caso de personagens telepáticos incompreendidos, algumas opções incluem o Verme Mental (algo que JAMAIS vai ocorrer), ou até mesmo Julia Carpenter (uma das Mulheres-Aranhas dos quadrinhos), ou a ex-namoradinha do Carnificina, Shriek. Enfim. O que não falta é opção.
Por fim, proponho um drinking game com esse filme. Um shot para cada vez que o nome “Jean Grey” for mencionado em voz alta. Quem não sair em coma alcoólico vence.






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