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O filme é bobo, mas bem divertido. Na era da nostalgia transformada em arma, claramente, o principal público-alvo são os marmanjos 40+ que cresceram assistindo as lições de moral do herói título entre as brincadeiras do Xou da Xuxa.
Sinceramente, o que esperar de um filme do He-man? Não faço essa pergunta de maneira insidiosa, mas honesta. É um filme baseado em uma franquia de brinquedos, desenhos animados, histórias em quadrinhos e filmes de mais de 40 anos. Então por que e, talvez mais uma pergunta mais importante seria, para quem esse filme é destinado?
Na era do cinema pós-pandemia, pós-universos cinemáticos, de mega franquias e da nostalgia transformada em arma, a resposta do “por que” parece ser bem óbvia. É o “para quem” que fica no meio do caminho, no final das contas. Porque claramente, um dos públicos-alvo seriam os marmanjos 40+ que cresceram assistindo as lições de moral do herói título do filme entre as brincadeiras do Xou da Xuxa. Mas segundo o diretor Travis Knight (Kubo e as Cordas Mágicas, Bumblebee), o filme também tenta alcançar a geração mais nova, seja ela a Z ou a alfa que só teve contato com os Mestres do Universo através dos memes ou das piadocas de Tiktok.
Então, apesar de ser extremamente divertido para a criança interior do marmanjo de 40+ que eu sou (e que sonhava com um filme mais fiel ao desenho animado desde o fracasso de 1987), a produção de 2026 parece não saber em quem deve acertar e por isso mesmo fica devendo em determinados aspectos. Um roteiro confuso, com mensagens meio dúbias, piadocas que não acertam sempre… Mas é bastante fiel, com cenas de ação ótimas, interpretações sólidas de (quase) todo mundo e um fator diversão bem alto.
Ok, parece uma crítica muito dura da minha parte para algo que definitivamente não se leva muito a sério, mas juro que He-man & os Mestres do Universo tem alguns (vários) pontos positivos apesar dos negativos. Então vamos nessa!
QUEM TEM A FORÇA?
O principal ponto positivo para mim, é a farofa! O filme tem completa noção de suas origens como um produto criado para vender brinquedos e não foge disso. Nomes bobos, vilões atrapalhados, heróis vistosos… Tudo isso faz parte de um imaginário infantil que a gente não tem como negar. E o diretor sabe.
Então, foi uma jogada inteligente começar o filme com um pequeno prólogo (que talvez se estenda um pouco demais) que situa o público em qual é a situação atual do Príncipe Adam e o porquê dele estar na Terra em vez de Etérnia. Como ele foge quando criança e de alguma forma cresce no nosso mundo, ele acaba espelhando de uma maneira crítica os próprios fãs que cresceram ouvindo as histórias dos heróis de Etérnia e que não conseguem passar disso. Todos os problemas que ele tem em sua vida nesse início são um reflexo da “infância perfeita” que ele não conseguiu abandonar e tenta desesperadamente retornar.
Mas de novo, isso soa mais como um “morde e assopra” da produção porque, ao mesmo tempo em que forma uma crítica velada aos marmanjões que levam muito a sério os brinquedos da infância, ela valida essas mesmas pessoas porque nós sabemos que tudo o que o Adam acredita é a mais pura verdade.
No momento em que ele se vê em Etérnia, o filme resolve seguir por outro caminho e mostra o quanto Adam realmente cresceu despreparado para uma vida de embates e o coloca para tomar sopapos de um lado para outro até que finalmente se vê forçado a erguer sua espada e clamar pelos poderes de Grayskull! Nesse ponto, meu lado crítico foi para as cucuias e eu só senti um arrepio emocionante ao ouvir a voz do Garcia Júnior voltando a dublar o herói e proferindo suas palavras mágicas. Sim, porque eu vi o filme dublado e acho que NENHUMA PESSOA NO BRASIL deveria sequer cogitar assistir de outra forma!
E assim como Barbie (2023), He-man tenta também enveredar por um tipo de crítica à masculinidade tóxica e à pressão paterna e social sobre o que é “ser um homem”, mas acaba mais uma vez ficando pelo caminho. Em meio às diversas conversas que Adam tem com suas figuras paternas (Mentor, Rei Randor e uma participação muito especial de Dolph Lundgren), fica no ar se as lições de moral sobre como um homem deve ser forte e se sacrificar e proteger todo mundo e ser forte e proteger e se sacrificar estão sendo passadas de forma irônica ou não. A boneca Barbie da Greta Gerwig, nesse ponto, foi muito mais corajosa (mesmo que tenha sido tatibitate). Mais perto do fim, a diferença na batalha final vêm das figuras femininas/maternas na vida de Adam. Tanto a Feiticeira quanto sua mãe, a Rainha Marlena, mostram a ele que seu diferencial nunca foi “a força” física que ele tem, mas sua empatia, seu coração e sua compreensão. Mas de novo, a mensagem se perde pelo meio do caminho porque tudo se resolve com uma sequência de socos espetaculares que parecem ter sido tirados de uma história em quadrinhos.
OS PODERES DE GRAYSKULL
O filme é um pouco longo demais com suas 2h20min de duração. Poderia ter facilmente meia hora a menos que o tornaria bem mais enxuto e direto. Contudo, tirando as confusão de mensagens que a história queria ou não passar, ele é imensamente divertido. É o tipo de filme que eu adoro dizer que para curtir, a gente pode remover o cérebro e colocar na poltrona do lado sem culpa e sem se preocupar.
O fator nostalgia está ligado no 11, desde o visual colorido, passando pelos vilões carnavalescos, até a música Eternia, composta por Daniel Pemberton (Homem-Aranha no Aranhaverso, Devoradores de Estrelas) em parceria com Brian May, o lendário guitarrista do Queen.
E se é de nostalgia que estamos falando, porque não mencionar a versão dublada? Depois de muito lenga lenga com a versão do desenho da Netflix em 2021, Garcia Júnior finalmente volta a dublar Adam/He-man como se nunca tivesse parado antes (ou mesmo ficado mais velho). É impressionante. Infelizmente, com a morte de Isaac Bardavid em 2022, não havia outra opção a não ser substituí-lo no papel do vilão Esqueleto. Contudo, a responsabilidade ficou com Luiz Carlos Persy que já tem muita experiência em dublar caras malvados como Lex Luthor (Liga da Justiça Sem Limites) e Lord Voldemort (Harry Potter). Ele transformou o Esqueleto num personagem seu, mas ainda dava para sentir uma certa “homenagem” em sua voz ao tom anasalado e histérico do desenho original.
E por falar em Esqueleto, não posso deixar de elogiar o Jared Leto por ter buscado interpretar o maior vilão de Etérnia com o máximo de fidelidade possível. Era muito comum que, nos anos 1980, os vilões de desenho animados fossem menos ambíguos, menos “tons de cinza” e mais alívios cômicos. Talvez para tranquilizar os pais que largavam as crianças na frente da TV, ou talvez só porque as coisas eram assim na época. As escolhas de interpretar o vilão como um cara que gosta de ser mal “porque sim”, mas ao mesmo tempo egocêntrico, inseguro e precisando de constante bajulação acaba sendo bastante fiel. Toda vez que ele aparecia na tela era divertidíssimo.
No fim, o filme vale bastante pela nostalgia mesmo. Meu filho pequeno, que não tem o mesmo apego ao personagem que eu, ficou um pouco entediado em alguns momentos depois da metade do filme. Tem uma barriga ali, entre a luta na Montanha da Serpente e a luta final que poderia ter sido bem mais enxugada, mas tudo bem. Os easter eggs estão bem distribuídos, em especial na loja de brinquedos no início do filme que mostram todos os brinquedos que serviram de inspiração para a criação do He-man, como a linha do Big Jim ou o protótipo original, apelidado de Vikor. Todos o visual está bastante fiel aos brinquedos e ao desenho e temos até mesmo menções ao filme de 1987. Sua criança interior vai vibrar como eu vibrei.
Então vale a pena? Para qualquer senhor de idade que cresceu nos anos 1980-1990, definitivamente. Ainda mais se considerarmos as três cenas pós-créditos que dão margem para outras continuações. Para a geração Z e alfa, talvez valha a pena esperar no streaming. Mas se um dos seus pais ou avós te convidar para ir ao cinema, vale a pena, mesmo que seja para ver o brilho da infância nos olhinhos marejados deles.
Uma pena que os créditos não sobem ao som de Trem da Alegria.




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