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Não parece interessado em trabalhar o gênero, quer o conforto do final feliz sem fazer muito esforço

6

David Robert Mitchell transporta um bairro suburbano dos anos 1980 para o período jurássico, obrigando uma família já em crise a sobreviver a criaturas pré-históricas. É uma combinação assumidamente moldada pelo cinema de aventura familiar de Steven Spielberg e pela tradição da Amblin, mas o maior problema está justamente no elemento que deveria transformar o espetáculo em algo mais do que uma sucessão de perseguições. O drama dos Platt é construído de maneira tão superficial que os conflitos parecem existir principalmente para que o roteiro tenha problemas a resolver.

O filme nos conta que o filho de 13 anos do casal, Brian (Christian Convery), é um garoto problemático, mas essencialmente o apresenta sofrendo bullying pelo irmão mais velho de outro garoto, em vingança por um suposto acidente que quebrou o braço do menino menor. A possível separação dos pais, que seria o motivo de o garoto apresentar mau comportamento, também nunca ganha densidade suficiente. Denise (Anne Hathaway) tenta concluir seu primeiro livro enquanto uma vizinha ligada ao meio literário reconhece seu talento, mas pouco em cena demonstra que a família seja realmente o obstáculo para sua carreira. A insatisfação doméstica nunca aparece além da frustração com as ausências do marido; fala-se muito sobre a personagem do livro ser um espelho dela, mas trata-se de comportamentos que ela jamais demonstra, exceto por ter escrito a tal personagem. Greg (Ewan McGregor), por sua vez, é sugerido como alcoólatra sem nunca aparecer em cena alterado de qualquer forma. Seu dilema mais concreto é outro: tornou-se um pai e marido ausente após perder o emprego e esconder da família, fazendo bicos para compensar a renda. Isso, por si só, renderia um drama interessante, mas não ganha o foco necessário diante dos outros elementos jogados na crise conjugal, o que torna tudo ainda mais artificial.

É claro que a verdadeira atração são os dinossauros. Mitchell evita mostrá-los de início, usando elementos do cenário, enquadramentos parciais e ameaças fora de campo, recurso que seu produtor J. J. Abrams defende como forma de ampliar o suspense. O problema é que, quando finalmente aparecem, os efeitos digitais nem sempre convencem. Essa economia visual acaba parecendo menos uma escolha consciente de tensão e mais uma forma de contornar as limitações do CGI. Mas vale separar os efeitos da controvérsia envolvendo inteligência artificial: houve críticas sobre uso de IA generativa em meio ao tour promocional do filme, mas não há evidência de que a tecnologia tenha sido empregada na criação dos dinossauros ou das sequências principais do longa.

[A partir daqui, alertas de spoiler]

Os efeitos tiram muito da força da cena de maior impacto, que poderia ser o momento de maior coragem do filme. Mas não foram apenas os efeitos que minaram essa coragem. A morte de Greg é provavelmente o maior ponto dramático do filme, mas não apenas o roteiro mina esse momento no final, mas os efeitos fazem da cena algo muito mais cabível em um filme trash. Ao sacrificar a própria vida para salvar Denise, ele coloca a esposa em primeiro lugar de maneira definitiva, dando peso concreto ao compromisso com um casamento que o restante do filme teve dificuldade para dramatizar. É uma decisão particularmente pesada para uma aventura familiar, talvez o tom de filme b teria vindo da necessidade de manter um senso de espetáculo? Porém logo em seguida cortamos para planos próximos da mãe e dos filhos presenciando aquilo, parece que o filme não se decide se devemos nos divertir com o espetáculo de sangue ou sentir o drama da família.

Mas não se preocupem, apesar do filme fazer questão de mostrar dinossauros transando para mostrar que e mais ousado do que os clássicos que está simulando, o roteiro não ia sustentar a ousadia de matar o personagem do ator mais caro do filme. No final uma viagem no tempo salva todo mundo, uma versão ficção-científica de “era tudo um sonho” e nada do que aconteceu tem consequência real. Pior: o roteiro abre um dos paradoxos mais básicos do gênero e simplesmente não se preocupa em enfrentá-lo. Se o passado foi alterado antes dos acontecimentos que permitiriam aos personagens voltar no tempo, de onde vieram aqueles que realizaram a mudança? Já faz tanto tempo que Rick and Morty parodiou esse clichê que hoje em dia Rick and Morty virou um clichê. O filme não parece interessado em trabalhar o gênero de verdade, quer apenas o conforto do final feliz sem fazer muito esforço para isso.

É justamente essa recusa em assumir suas próprias consequências que torna O Fim da Rua frustrante. Há uma boa ideia de blockbuster em seu centro e alguns momentos em que Mitchell encontra a combinação certa entre ameaça pré-histórica e vulnerabilidade doméstica. Mas o roteiro insiste em inflar conflitos familiares pouco desenvolvidos e, quando finalmente encontra uma decisão capaz de lhes dar verdadeiro peso emocional, volta atrás.