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A pretensão não é o problema. O problema é descobrir quanto da mensagem realmente está no filme.

8

Existe uma diferença entre um filme pretensioso que não consegue sustentar suas ambições e outro que constrói uma estrutura elaborada para acomodá-las, mas tropeça ao tentar comunicar por que tudo aquilo é necessário. Digger, de Alejandro González Iñárritu, parece pertencer à segunda categoria. Estrelado por Tom Cruise como um magnata do petróleo confrontado com as consequências de uma catástrofe provocada por seu próprio império, o longa parte de uma sátira política e ambiental para algo consideravelmente mais ambicioso. É uma obra pretensiosa, sem dúvida, mas curiosamente não é na construção narrativa que suas pretensões encontram o limite. Iñárritu demonstra pleno controle sobre a estrutura que escolheu, mesmo quando ela parece fazer de tudo para desafiar o público.

Também é curioso que, apesar das figuras caricaturais e da encenação frequentemente extravagante, a comédia funcione melhor em um registro relativamente sutil. O humor de Digger não depende tanto das gargalhadas quanto do desconforto que determinadas situações provocam, da percepção do absurdo em comportamentos que, infelizmente, não parecem tão distantes da realidade. Há inteligência nesse mecanismo, mas é justamente nele que começa a surgir o maior problema do filme. Iñárritu deposita sobre essas sutilezas, entrelinhas e pequenos deslocamentos de significado um peso filosófico que elas nem sempre conseguem suportar. O subtexto deixa de enriquecer a narrativa para se tornar praticamente responsável por sustentá-la. Quando aquilo que pode facilmente passar despercebido carrega a maior parte da mensagem, surge uma questão incômoda: o espectador realmente compreendeu o que o filme queria dizer ou construiu sua própria interpretação e se convenceu de que encontrou ali uma intenção do diretor?

A grande virada narrativa, cuidadosamente protegida pela campanha de divulgação e que também permanecerá em segredo nesta crítica, é talvez a decisão mais pretensiosa de todo o projeto — e funciona. Não chega necessariamente a produzir a surpresa que parece desejar, mas reorganiza a experiência e oferece uma nova dimensão àquilo que vinha sendo apresentado. É uma escolha estrutural interessante, importante para o argumento central e, paradoxalmente, também responsável por tornar mais evidente a fragilidade desse argumento. A partir dela, o filme parece confiar ainda mais na capacidade do público de encontrar conexões e completar ideias que nem sempre foram suficientemente articuladas. A pretensão formal encontra sua justificativa, mas a filosófica continua dependendo de uma interpretação generosa.

É especialmente no niilismo que atravessa a obra que Digger encontra seu maior risco. Existe aqui um problema que remete à própria história da recepção do pensamento de Nietzsche: a facilidade com que um discurso que questiona valores e certezas pode ser apropriado para justificar praticamente qualquer conclusão, inclusive aquelas que contradizem sua intenção original. Ao deixar tanto de seu significado sujeito à interpretação, Iñárritu corre o risco de entregar uma obra na qual cada espectador encontrará a confirmação daquilo em que já acreditava. Não se trata de exigir respostas prontas ou condenar a ambiguidade — ela pode ser uma excelente ferramenta narrativa —, mas de questionar quanto da responsabilidade de construir uma mensagem pode ser transferida ao público antes que o próprio filme deixe de sustentá-la. Digger tem ambição, inteligência e uma estrutura que merece reconhecimento. Seu maior problema talvez seja o de tornar impossível distinguir, com alguma segurança, o que efetivamente tem a dizer daquilo que cada um decidirá que ele disse.