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Vale a por curiosidade técnica e pela Andreia Beltrão; não pela pela discussão que o filme jura estar travando.

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Antártida fabrica um continente gelado melhor do que decide o que fazer com as pessoas presas dentro dele. Essa é a distância que o filme de Bruno Safadi nunca consegue fechar: de um lado, uma produção que constrói do zero, dentro de um estúdio no Rio de Janeiro, uma Antártida convincente; do outro, um roteiro que passa duas horas explicando e movimentando uma história que sua própria dramaturgia deixa parada.

A premissa não precisava de muito. Na Estação Comandante Diniz, cientistas e militares se preparam para encarar o inverno isolados. Na primeira noite, a pesquisadora Inês (Marina Ruy Barbosa) é vítima de um estupro. Sem resgate possível, todos os homens da base viram suspeitos — inclusive o Comandante Barros (Antonio Calloni) e o Capitão Vicente (Lázaro Ramos) — e cabe à subcomandante Elisabeth (Andréa Beltrão) conduzir a investigação. Isolamento, violência de gênero, hierarquia militar e desconfiança: matéria dramática de sobra, sem necessidade de artifício.

Andréa Beltrão e Marina Ruy Barbosa são as maiores responsáveis por impedir que o filme derreta completamente. As duas estão, de maneira geral, muito bem, mas existem cenas em que precisam fazer mais do que interpretar suas personagens: precisam resgatar do texto alguma coisa concretamente viva e emocional. Nem sempre a dramaturgia ajuda, pois parece constantemente indecisa se é um melodrama ou um suspense investigativo. É uma hesitação que contamina o filme inteiro. O problema não está na presença do melodrama — que poderia perfeitamente conviver com o thriller —, mas na maneira como ele surge repetidamente como um truque para injetar movimento em cenas que dramaticamente continuam engessadas. Assistimos O Comandante revelar uma condição de saúde terminal como uma reviravolta barata e literalmente narra para a subcomandante (e a audiência) os impactos que o escândalo que o estupro poderia trazer para sua carreira. Assistir Calloni e Beltrão dando seus pulos para fazerem esta cena funcionar chega a ser triste, este roteiro não sobreviveria em uma novela da Globo.

O suspense sofre constantemente com essas reviravoltas, e Safadi parece sempre em duvida se entrega o melodrama ou o suspense. O melodrama não é o problema; conviveria bem com o thriller. O problema é que ele nunca decide qual dos dois está dirigindo. Antártida constrói mistérios e posterga respostas, mas chega um momento em que fica evidente demais que determinadas tensões existem principalmente para retardar uma conclusão. Quando o espectador começa a enxergar as engrenagens trabalhando para impedir que a narrativa avance, o mecanismo deixa de produzir ansiedade e passa a produzir espera. Isso é especialmente prejudicial porque o material não precisava dessa insistência: isolamento, violência de gênero, hierarquia e desconfiança dentro de uma estação remota já oferecem matéria dramática suficiente. Ao tentar constantemente aumentar a temperatura emocional, o filme termina curiosamente mais frio.

Tecnicamente, Antártida é um feito: a produção virtual dos Estúdios Globo, os efeitos e a construção da estação vendem um continente gelado com uma segurança Rafa no cinema nacional. Mas filmar dentro de um volume de LED tem consequências sobre a encenação: a decupagem se planeja antes, o espaço se fecha, a marcação endurece. É possível que a rigidez que o filme demonstra com os atores seja parente direta do aparato que garante o gelo. Vale a ida ao cinema por curiosidade técnica e pelo trabalho de Beltrão; não pelo suspense, e muito menos pela discussão que o filme jura estar travando.