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Mesmo sendo um fracasso de crítica, Street Fighter virou um sucesso de bilheteria, faturando US$105 milhões. A classificação etária baixa garantiu a presença do seu principal público, os adolescentes e crianças que curtiam o jogo. E hoje ele é visto por muitos como um clássico cult.

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Nível de hadoukens

Para os fãs de videogame, os anos 1990 foram um teste de fogo. Primeiro porque foi a primeira vez em que os games começaram a ganhar versões cinematográficas. E segundo porque foi a primeira vez que os games começaram a ganhar versões cinematográficas. Em 1994, a segunda adaptação de uma longa lista de decepções chegou ao cinema, mas gerando um lucro imenso mesmo assim. Vamos dar meia-lua para frente + soco e rebobinar Street Fighter, o filme.

O ano era 1994 e a grande guerra dos consoles tomava conta do mundo. Um sucesso em particular, além dos jogos de praxe, era uma continuação de um jogo de luta de 1987 que havia essencialmente passado em branco. Street Fighter 2 havia sido lançado em 1991 e trouxe consigo um enorme séquito de fãs que passavam horas e horas e horas nos fliperamas decorando golpes, macetes e combos.

Com o sucesso do jogo, mais uma imensidão de produtos associados começaram a ser lançados: gibis, desenhos, animes, álbuns, versões do jogo para consoles, etc. Um filme norte-americano produzido em Hollywood era só uma questão de tempo. Então quando a Capcom decidiu enviar uma trupe de executivos aos EUA atrás de um produtor, não demorou muito para encontrar um com um “faro” para o negócio (mesmo que a maioria dos produtores hollywoodianos tenham o faro prejudicado, *pisca-pisca* *cutuca-cutuca*). Com isso, o filme foi parar no colo do roteirista Steven De Souza, apenas o responsável por pérolas cinematográficas como  Comando para Matar (1985) e Duro de Matar (1988), além de seriados igualmente famosos como O Homem de Seis Milhões de Dólares (1973) e A Supermáquina (1982). Steven, contudo, não queria ser apenas o roteirista. De olho no polpudo lucro que um filme como este fatalmente geraria, ele se colocou também à disposição para ser o diretor.

E como em todo documentário de true crime que se preze, é neste exato momento em que ouvimos a voz do narrador comentando: Ele não fazia ideia do que iria acontecer…

DÁ HADOUKEN, RYU!

A ideia inicial não era ser um filme sobre um torneio, algo como O Grande Dragão Branco, por exemplo. De Souza escreveu um tratamento para um filme de espionagem e ação no melhor estilo James Bond, com poucos personagens. O foco inicial seria o americano Guile (obviamente), além dos heróis típicos Ryu e Ken, enfrentando o maníaco ditador M. Bison que planejava criar um exército de super soldados geneticamente alterados. Com isso, o número de personagens ficaria em torno de sete porque, segundo Steven De Souza, esse era o “número mágico”:

“Dentro de um filme de cento-e-poucos minutos, não sobra muito tempo tela para ficar de bobeira. Além disso, o público mal consegue acompanhar sete personagens principais, por conta disso, este sempre foi o número mágico usado através da história: os sete pecados capitais, as sete maravilhas do mundo, ora bolas, os sete samurais!”

Só que aos poucos esse plano foi saindo cada vez mais de mão. Toda vez que o roteiro era reescrito e enviado para a Capcom para aprovação, eles pressionavam De Souza para adicionar só “mais um personagenzinho” porque “tal e tal” muito popular no Japão, ou porque “esse aqui” não podia faltar de jeito nenhum e, opa, que tal incluir só mais unzinho? No fim, dos dezessete personagens existentes no jogo até aquele ano, quinze entraram para o elenco final. Muitos foram exaustivamente re-adaptados a ponto de serem personagens com pouquíssima função trama e só um nome reconhecível nos créditos finais. A título de curiosidade, a lista de personagens jogáveis em Street Fighter 2 (e suas versões Turbo, Super, etc.) consistia de: 

  • Guile, soldado das forças especiais americanas;
  • Ryu, artista marcial japonês;
  • Ken Masters, artista marcial e rival do Ryu;
  • Chun Li, agente da interpol em busca de vingança contra M. Bison;
  • Edmond Honda, lutador de sumô japonês;
  • Blanka, o homem-fera e lutador brasileiro;
  • Dhalsim, monge yogi e pacifista;
  • Cammy, agente britânica do MI6 apresentada em Super Street Fighter 2 (1993);
  • Thunder Hawk, um lutador indígena do México apresentado em Super Street Fighter 2 (1993);
  • Fei Long, lutador de Hong Kong apresentado em Super Street Fighter 2 (1993). Claramente uma homenagem/cópia de Bruce Lee, foi um dos dois únicos personagens não usados no filme.
  • Dee Jay, um lutador de kickboxing jamaicano apresentado em Super Street Fighter 2 (1993);

Do lado dos vilões temos:

  • Zangief, lutador de luta livre profissional russo, também conhecido como o Ciclone Vermelho no Japão;
  • Balrog, boxeador americano, um dos personagens dos games que passou pela infame “troca de nomes” do console japonês para o americano, sendo aparentemente a razão principal disso;
  • Sagat, lutador de kickboxing tailandês e rival mortal de Ryu;
  • Vega, lutador clandestino espanhol, e outro que fez parte da confusa troca de nomes;
  • M. Bison, o líder do sindicato criminoso Shadaloo e chefe final do jogo. Perigoso e com poderes psíquicos formidáveis. Chamado de “Vega” no jogo original japonês, passou a ser chamado de “Mister Bison” no restante do mundo.
  • Akuma, o último personagem do roster, o chefe secreto dos jogos. Era um personagem escondido que só podia ser acessado e se tornar jogável através de cheat codes em Super Street Fighter 2 Turbo. Não aparece no filme.

Sem sombra de dúvidas, acompanhar quinze personagens de uma vez só não é algo possível em um filme de uma hora e quarenta e poucos minutos, como bem disse o diretor. Afinal, o jogo aqui não é Pokémon, né? Com tanta gente para ter um mínimo de destaque na trama, no final das contas alguns papéis ficaram redundantes e alguns personagens ficam fora de jogo por um bom tempo e um filme que era para ser sobre lutadores em um torneio ilegal de artes marcias, acaba tendo pouqíssimas lutas de fato. E os personagens acabam sendo adaptados em funções quase irreconhecíveis, porque são claramente substituições de última hora.

TA-TAK-TAK-TURUGUE!

Então o quanto os personagens foram alterados nessa história? Bom, qualquer fã de Street Fighter que se preze sabe que os personagens principais da franquia são Ryu e Ken. E talvez a Chun-Li, por ser reconhecida como a primeira personagem feminina de um jogo de luta (na verdade, ela foi a segunda). De qualquer forma, essa é a trindade da Capcom tida como os personagens mais populares.

No entanto, como o filme é produzido nos EUA, obviamente, o herói principal precisou ser alterado. Com isso, sai o lutador andarilho que viaja o mundo em busca do mais forte e entra o militar saradão de cabelo escovinha. Guile, interpretado por Jean Claude Van Damme, surge como o líder de uma força militar das Nações Aliadas (uma versão genérica das Nações Unidas). Jean Claude, no alto de sua carreira e recém-saído de grandes sucessos como O Alvo (1993) e Timecop (1994), chega como a grande estrela de ação que vai atrair o público ao cinema e com isso come boa parte do orçamento inicial. Além disso, seu enorme ego e vício em cocaína se provou um obstáculo imenso à conclusão do filme.

Junto dele, outro ator de renome acaba sendo escalado como vilão principal: Raul Julia encarna o temível ditador M. Bison, naquele que seria o último papel de sua carreira. Julia havia aceitado interpretar o personagem por conta de seus filhos, que eram fãs dos games, mas não havia contado à produção sobre o seu câncer de estômago, que acabou tirando sua vida pouco depois do fim das filmagens. Com dois enormes pepinos nas mãos (um mocinho narcisista cocainômano e um supervilão com a vida por um fio), Steven De Souza teve que se virar para fazer o filme acontecer.

Com isso, ele focou primeiro nas cenas menores, que não contavam com os atores principais. E organizou as filmagens entre duas locações: locais abertos na Tailândia e estúdios na Austrália. As cenas de luta realmente acabaram ficando em segundo plano (o que é incrível por se tratar de um filme de luta) e as adaptações no roteiro para incluir personagens se faz notar.

Algumas das mudanças colocam Chun-Li (Ming-Na Wen) como uma jornalista de uma rede de notícias internacional acompanhada de dois assistentes, o ex-boxeador Balrog (Grand L. Bush) e o ex-lutador de sumô E. Honda (Peter Navy Tuiasosopo). O que acaba sendo engraçado pois, já que Balrog é americano, aparentemente ele não pode ser colocado como vilão ao lado de um ditador no filme. Além disso, E. Honda deixa de ser japonês e se torna um lutador de sumô havaiano! Já Ryu (Byron Mann) e Ken (Damian Chapa) deixam de ser os personagens principais, como eu havia comentado antes, para se tornarem meros golpistas que tentam vender armas de brinquedo para mercadores da morte como Sagat (Wes Studi) e seu capanga Vega (Jay Tavare).

E do lado dos vilões, alguns personagens acabam sendo muito mal adaptados. Dee Jay (Miguel A. Núñez Jr.) vira um capanga de Bison responsável pelas comunicações da organização criminosa (e alívio cômico) e Zangief (Andrew Bryniarski) age apenas como força bruta. Dhalsim (Roshan Seth) se torna um cientista forçado a criar soldados modificados geneticamente e Blanka (Robert Mammone), que possui uma história enorme e complexa nos games, é apenas um colega de Guile que é raptado no início do filme e se transforma no monstrengo verde nos minutos finais.]

Por fim, Cammy (a cantora e atriz Kylie Minogue) e T. Hawk (Gregg Rainwater), acabam não passando de “extras de destaque” com um papel ínfimo no filme. Ela ainda ganha um pouquinho mais de destaque por se tratar de uma atriz de TV e cantora já bastante conhecida na Austrália, apesar de Street Fighter ter sido apenas o seu segundo filme na carreira.

YOU WIN!

Tá, mas e a história? É boa, pelo menos?

Tá brincando?! Com tantos problemas em mãos, foi um milagre este filme ter sido terminado, na verdade! Em matéria de roteiro, o filme tem um ritmo confuso com poucas desculpas para pular de uma luta para outra. Mas mesmo assim, nem mesmo as lutas acabam salvando, pois são pouquíssimas e muito mal coreografadas. Para se ter uma ideia, em determinado ponto Ryu (que é estranhamente chamado de “ray-yu” em inglês) é colocado para lutar contra Vega em uma jaula e os dois se preparam por quase cinco minutos e, quando finalmente parece que a luta vai começar, Guile invade o local com um tanque e prende todo mundo! #FUÉN

No fim das contas, a cena de luta principal acaba sendo Guile vs. Bison, já perto do final. É a luta de maior destaque, com um mínimo de golpes e movimentos parecidos com os dos games. E, como de praxe, em meio a um processo de autodestruição do complexo do QG do vilão. O filme acaba como começou, de repente e com os personagens fazendo suas poses de vitórias em uma foto vergonhosa.

O medo dos atores de que o filme fosse um fracasso era real. Ming-Na Wen, que estava ganhando destaque por conta do seriado Plantão Médico (1994), chegou a comentar com o então colega George Clooney que temia que sua carreira acabasse por conta do filme, ao que ele teria respondido: “Querida, é preciso de muito mais para acabar com uma carreira… Eu sei bem disso”.

E realmente, mesmo sendo um fracasso de crítica, Street Fighter se tornou um baita sucesso de bilheteria, custando cerca de US$30 milhões e faturando US$105 milhões. Com uma classificação etária baixa, a produção garantiu a presença do seu principal público, os adolescentes e crianças que curtiam o jogo. Hoje em dia, o filme é visto como um clássico cult, em especial pela atuação de Raul Julia, que entrega um vilão dramático, narcisista e egocêntrico que é impossível não rir de falas como:

“Para você, o dia em que Bison invadiu sua vila foi o dia mais importante da sua vida. Para mim, no entanto… foi apenas uma terça-feira!”

Ai, ai. Que saudades. Com a chegada do novo filme de Street Fighter em 2026, dá para perceber que a Capcom ainda está tentando alcançar o mesmo sucesso de 1994. No entanto, depois de tentativas anteriores como A Lenda de Chun-Li (2009), Punho Assassino (2014) e o anime clássico Street Fighter II: The Animated Movie (1994), fica a dúvida se essa nova versão vai conseguir ser tão ruim e carismática, ou se vai ser só ruim mesmo.