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Decente, com um elenco que cumpre sua função, mas ainda um filme direto para o streaming e que foi catapultado para os cinemas pelo drama corporativo

7

Coyote vs. Acme demorou três anos para alcançar sua audiência, e por pouco nunca teria sido visto. Embora essa conquista seja algo válido de se comemorar, a verdade é que o que seria um filme feito direto para o streaming está sendo transportado para um lançamento internacional nos cinemas. Talvez a melhor coisa que já aconteceu a este filme tenha sido ser engavetado em troca de alguns milhões em isenção fiscal para o estúdio — benefício que a Warner Bros. Discovery mantém até hoje. Dirigido por Dave Green e escrito por Samy Burch, o filme acompanha o coiote dos clássicos desenhos do Papa-Léguas indo até Albuquerque, no Novo México, contratar um advogado oportunista (Will Forte), para processar a Acme, fabricante de todas as geringonças que ele usa em seus planos de capturar o famigerado pássaro. A premissa e o uso de animação em conjunto com atores em cena criam paralelos inevitáveis com a maior referência do estilo: Uma Cilada para Roger Rabbit.

Ao enquadrar o filme como um drama de tribunal, assim como Roger Rabbit era enquadrado como um noir, Burch segue os mesmos passos e busca dar ao projeto sua própria identidade. Mas falha em usar os arquétipos e clichês do gênero escolhido de forma tão memorável quanto Roger Rabbit. Will Forte e John Cena estão ótimos em seus papéis e fazem sua parte para sustentar o filme quando a animação não está no ápice. Ainda assim, o filme não ousa tanto quanto Roger Rabbit ousava mais de trinta anos atrás. Contratar Dave Barclay, o mesmo marionetista que trabalhou no filme de Robert Zemeckis, para construir e manipular a marionete do Coyote usada nas filmagens de fato garantiu a fisicalidade da presença dos personagens, mas não impediu que o público sentisse estranheza nas animações sobrepostas depois, em alguns casos. O filme faz dezenas de recriações de momentos clássicos do pastelão absurdo do desenho mas não constrói nenhuma cena memorável própria.

Existe outro paralelo grande entre os dois filmes: a interferência dos executivos dos estúdios e seus impactos no projeto. Mas é aqui que mora a maior diferença entre eles. Em Roger Rabbit, o único risco de apagar as animações da existência era diegético, no caldo do vilão Juiz Doom; em Coyote vs. Acme, a Warner Bros. Discovery quase jogou o filme inteiro no caldo para que ninguém jamais o visse. É importante, porém, não transformar a Warner Bros. Discovery em uma personificação cartunesca de vilania, um Juiz Doom da vida real, por mais tentador que o paralelo seja. Olhando simplesmente para uma planilha de contas, decisões corporativas não são a maldade de uma criatura sem coração — bem, talvez sem coração de qualquer forma, mas são lógicas. Porém o produto em questão não deixa de ser uma obra de arte, e essa decisão foi feita por executivos que nunca nem viram o filme, ou se viram, viram uma versão não finalizada.

Roger Rabbit também teve seus problemas com os estúdios. A própria ousadia temática do filme só foi possível porque a Disney se escondeu atrás de outra entidade corporativa, a Touchstone Pictures, para evitar qualquer mancha em sua imagem associada a temas infantis e menos controversos. Mas o mais marcante para o filme talvez seja o jogo por trás das negociações para que tantos personagens que são propriedade de tantas empresas diferentes aparecendo no filme, resultando na icônica cena de Patolino e Pato Donald em um duelo ao piano no bar. As restrições daqueles contratos fizeram com que a produção revisasse roteiro e edição para que nenhuma das marcas se sentisse menos prestigiada ou prejudicada de alguma forma. A diferença crucial em Coyote vs. Acme é que todo o embate corporativo acontece dentro da própria Warner Bros., consigo mesma, depois da fusão com a Discovery que criou a Warner Bros. Discovery em 2022. E nada dessa interferência aparece em tela de forma alguma, mas construiu uma narrativa forte em torno do cancelamento do filme, com Will Forte escrevendo uma carta aberta pedindo sua liberação e Eric Bauza, voz do Patolino, fazendo um apelo na voz do personagem durante a cerimônia do Annie Awards. Essa narrativa foi então reapropriada pelo marketing da Ketchup Entertainment, a distribuidora independente que acabou comprando os direitos internacionais.

A ganância corporativa pode gerar impactos narrativos profundos, como Roger Rabbit comprova, mas nenhum deles está na tela em Coyote vs. Acme. Toda a narrativa existe apenas na campanha de marketing, e campanhas de marketing não determinam a verdadeira qualidade de um filme, apenas trazem público para a sala. O quão memorável este filme será em vinte anos depende, então, de quão memorável for essa campanha, e da verdade nesta narrativa. Na prática, para o público brasileiro, a narrativa da pequena distribuidora indie peitando a grande corporação não se sustenta: a Paris Filmes não se equipara às grandes distribuidoras internacionais, mas no nosso mercado está longe de ser uma pequena empresa independente.

A fantasia de um grupo mais fraco vencendo uma corporação gigantesca tem seu grau de verdade, mas é uma vitória questionável. A Warner Bros. Discovery segue com seu desconto fiscal de milhões pelo “fracasso” do filme, segue tendo enterrado projetos que nunca verão a luz do dia, como Batgirl, e ainda ganhou dinheiro com a venda dos direitos para a distribuidora menor. O que sobra para o filme quando se tira tudo isso? Um longa decente, com um elenco que cumpre sua função, no que teria sido um filme direto para o streaming e que foi catapultado para os cinemas por uma empresa esperta o bastante para capitalizar o drama corporativo.

Enquanto isso, a Warner Bros. Discovery está prestes a passar por outra fusão, desta vez com a Paramount Skydance, que inflaria ainda mais o conglomerado de gente que só olha para a planilha e toma decisões completamente unilaterais sobre o que deveria ser nosso horizonte cultural acessível. Essa campanha de marketing não vai ser lembrada de forma significativa, e este filme não teve a ousadia nem a inovação que sua inspiração teve. Talvez ele seja mesmo o Roger Rabbit desta geração, mas eu espero mais desta geração do que simplesmente comprar gato por lebre. Neste momento, o Writers Guild of America, o sindicato dos roteiristas de Hollywood, está na Justiça ao lado dos procuradores-gerais de doze estados para impedir essa segunda fusão. Ao contrário das constantes caracterizações na mídia, esta não é uma geração de acomodados em suas poltronas.